Pierrot

Pierrot
la tristesse

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Dimensão do Humano


Certa feita,
Enviaram-me um anjo
Quando eu não estava em casa.
Ela entrou, trouxe um vento de felicidade
Que varreu todos os cômodos,
Os meus discos, meus livros,
Espalhou os meus poemas pelo chão...
Desarrumou a cama,
Largou a geladeira aberta
E, Como para me divinizar,
Deixou a pena da asa
Com a qual escrevo estes versos.

o que agora sou




Apenas me abrace.

O teu abraço é algo

Que me torna mais vivo,

Mais humano,

Mais gente e menos pedra.


O beijo e a brasa

Quero sentir na pele.



A minha MÃE entoava sempre




Uita, companheiro Uita,
Uita vamos pelejar.

Uita, companheiro Uita,
Uita vamos pelejar.

Oi lá no mar
Quem não tem canoa
Passarin avoa
Passo avoador na beira do mar.

Oi lá no mar
Quem não tem canoa
Passarin avoa
Passo avoador na beira do mar.



domingo, 11 de dezembro de 2011

PANTHEON DOS AMANTES


Chegar, de mãos dadas com ela,
Segurando-a pelos ombros
E sendo seguro por ela,
Em qualquer lugar, tempo ou circunstância
É uma entrada triunfal!

Entrar na guerra, de mãos dadas com ela,
Faria o inimigo retroceder, render-se,
Pedir perdão pela discórdia,
Engajar-se na minha causa.

Entrar no inferno, abraçado com ela,
Faria o Demônio ajoelhar-se e rezar,
Oferecer-me todos os tipos de subornos
Para que eu sentisse aversão, e saísse.

Entrando no Céu, segurando-a pela mão
E sendo seguro por ela,
DEUS sorriria, dizendo:
Este é o meu Filho,
Eternamente Humano e Menino;
Alegremo-nos na sua alegria!

Chegar, de mãos dadas com ela,
Segurando-a pela cintura
E sendo seguro por ela,
Em qualquer lugar, tempo ou circunstância
É uma entrada triunfal!

MUDANÇA


Ela quis partir e eu deixei.
Estávamos entrando numa de cotidiano.

Eu vi defeitos
Na sua perfeição física,
Na sua conduta inconteste,
Na exatidão da sua intuição.

Ela quis se ver livre
E eu permiti que ela se fosse.

Não posso pedir que ela me ame
Se ela não mais vir em mim
Aquele a quem ela amou.

SOLIDÃO II


Eu preciso de companhia
Para contar estrelas
Nas noites mais solitárias
Quando consigo vê-las.

Eu preciso de toda a paz
Que o desejo me levou
Para sanar em mim
O vazio que ficou.

Eu preciso de todas as pessoas
Que já estiveram ao meu redor
Porque a saudade delas
Tem sido cada vez pior.

Eu não preciso de mais veneno
Pois não quero vingança
E se você me erguer o braço
Tiro-lhe para uma dança.

Eu não preciso que me digam
Que eu preciso de esquecimento
Enquanto houver esperança
De um novo sentimento.

Eu preciso esquecer que houve um dia
Para esquecer de um dia
Para esquecer outro dia
E eu não esquecia.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

KEPLER

Por Cristiane Gandolfi, poetisa.


Dia nublado, branco acinzentado me encobre.

Tantas luzes do passado não acendem mais.

Pisca-piscas verdes, azuis, vermelhos já não iluminam

O dia que vivemos juntos.

Não há luz, estrelas não brilham.

Um planeta é descoberto:

Há um novo azul

Distante daqui.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fragmentos


I

Aqui jaz um espírito.
O corpo ainda vive.
O pulso pulsa.

II

A dor íntima necessitava
Desta tortura externa...

III

Passei da infância à senectude
Sem jamais viver o presente
E o tempo não soube me enumerar.

IV

Por ser poeta, perdi o presente
Ansiando o futuro.
Quando percebi que já havia acontecido,
Estava morto e sem memória:
Um gigante irrevolto!...

V

E não consegui juntar os cacos
Das muitas coisas que quebrei.

VI

Tenho, sim, uma das mãos mirrada.
Opero neste mundo
Apenas com a mão que destrói
E não sinto mais nada
Das inúmeras coisas que fui.

VII

Porém, mesmo vestido
De forma imprópria
E não subtraindo bens materiais
Dos ajuntadores de tesouros,
Trago sempre comigo algo de que
Alguém vitalmente necessita.

VIII

Esta é a imagem do poeta:
O Cristo arrastando a cruz do mundo
Sobre seus ombros
Quando Este se cansar
E fizer com que cada um
Carregue o peso de sua alma.

IX

Não se cantam réquiens
Nem se poetizam as epopeias
Deste que, em vida,
Tão pouco viveu.

X

Era um magnífico enterro.
E eu ali, no caixão,
Ao centro de tudo,
Apenas resumido à minha mediocridade.

XI

Mas não estou aqui para te ferir;
Só não abaixe o escudo
E nem me dê as costas.

 

REFÚGIO



Toda vez que venho a este lugar

Encontro uma parte de mim

Como se os fragmentos do meu ser

Estivessem nascendo aqui;

E volto para me reconstituir,

Me recompor,

Agrupar átomos de mim.

Um Molambo em volta do Quadril


Me visto assim
Porque as Roupas de Lord
Não me caem bem.


Elas ficam muito aquém
Do meu Biotipo empertigado;

Elas ficam muito aquém
Do meu Raciocínio enorme;

Elas ficam muito aquém
Da minha Atitude isenta.


Por isso me visto assim:
As roupas de lord
Não me caem bem.

Revoluções Descartáveis



Foi a inversão da Ordem da Lei.
Eu não sei como eles conseguiram.
E nos pusemos a lamentar.
Justamente nós, Juízes e Verdugos
Das Santas Inquisições,
Entramos em polvorosa,
Agora encolhidos nos cantos das celas,
Temendo a consumação
Da nossa própria arte:
Os assassinos estão vindo!
Não vêm nos julgar,
Posto que, assim como nós,
Também execram estes Mecanismos;
Somente vêm nos executar.
E jamais saberemos
Se isto ou aquilo foi mais abominável.

O Livro Eterno


As meninas do meu tempo
Queriam um menino que,
Ao menos, aparentasse estar vivo.
Por isso foram todas embora
E eu fiquei sozinho com o meu livro.
Eu gostava dela.
Acho que ainda a amo,
Mesmo vivendo em realidades paralelas...
Sempre estive só.
Às vezes, me juntava às pessoas,
Ainda assim, estava distante.
O meu espírito nefelibata a buscava
E, encontrando apenas um vácuo,
Continuava sozinho.
Ah, o livro?!
O livro ainda está comigo
- In-fólio e impublicável -
E é por ele que aparento estar vivo.


cursos naturais


Tranquei as portas
(eu já não cabia na paz)
E fui viver o amor.
Me arrisquei... me feri...
Tanto menti que enganei a mim mesmo,
E fui traído,
Sabe Deus como ou por quem!
E, após chorar e perder
Tudo que havia
Para ser chorado e perdido,
Dei cabo de mim
E, ao terceiro dia
Não houve ressurreição.
O meu irmão ficou em casa
Contando medalhas e honrarias,
Planejando ganhar mais e mais e...
Não sei que pior fim terá levado.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Amigos



Não se preocupe comigo,

Eu estou bem!

É que ás vezes

É necessário chorar

Para ser homem e excretar a mágoa.

Para ser forte e fugir da lembrança.

Quando choro,

Fico mais feliz

E de alma lavada.

Eu estou bem,

Vamos lá!



Qualquer Possibilidade


Já faz muito tempo
Que fico rezando para chover
Quase todos os dias.

Já faz, talvez, o mesmo tempo
Que, quando vejo animosidades
Entre países,
Torço pela guerra.

E tem, certamente, mais tempo ainda
Que, brigando os casais, ou os amigos,
Ou as instituições indispondo-se,
Ou os indivíduos rebelando-se,
Faço votos
Para que tudo acabe
Da pior forma possível.

A alguns dias
Fico pensando que a perdi,
Que caminhei a vida inteira em vão,
Que chutei o pote de ouro
No final do arco-íris
E um tolo qualquer o recolheu
Sem ao menos suspeitar o valor.
Talvez ela volte!...
Ontem o meu time nem jogou...
Uma ex-namorada se casou...
Acho que o câmbio oscilou...


terça-feira, 22 de novembro de 2011

sertaneja

por Cristiane Gandolfi, poetisa.


Do sertão eu vim.
Não foi da caatinga
Não foi do nordeste
Não foi do centro do Oeste
Foi do mais dentro de mim.

Vim dos agrestes que brotam de minhas minas d`águas
Pleno movimento insurgido de seus baixos.

Vim das rupturas que marcam minhas pegadas,
Vim dos enfrentamentos que insistem construir estradas.
Do sertão vim,
Vim do cabuloso, do nebuloso,
Ornado em faca, couro, chapéu e bala.
Pronto para guerra do bem contra o mal.
Pronto para goethear na madrugada.
Pronto para sertanejar na arena dos deuses que já morreram.

No sertão vi a terra rachada,
No sertão senti o cheiro da fome
No sertão toquei a seca dos olhos da criança quase morta
No sertão andei sobre a carcaça dos animais que clamavam por Água.

Foi lá no sertão que esperei,
Lá no sertão diante de todo niilismo,
De toda falta de fé,
Lá no sertão me reencontrei com meu humano,

Sigo com fé,
Não sei em que ou em quem,
Com fé sigo
No que há por debaixo das estações,
Debaixo dos sóis,
Debaixo da terra queimada no chão.

Fé no sertanejo,
Na força bruta de quem doma a natureza,
Fé na humanidade de quem se acostumou a ver a morte ao seu Lado.
Fé na divindade que nunca se afastou daqueles que mesmo Cansados buscam se levantar.

Do sertão vim,
No sertão nasci,
No sertão morrerei
E lá nunca deixei de ser feliz.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Ofício


Um poema!
Versos tenho eu aos montes
Desconexos
Soltos como eu
Não
Não quero versos
Versos para quê
Tenho urgência de um poema
Completo
Unoindivisível
Como esta noite
Que é hoje até amanhã
Mas é uma noite só
Não mudemos de assunto
Depois de escrito e passado a limpo
Vou dormir
Não é bom me ter acordado
Tanto tempo, até tão tarde
O meu ócio dá que fazer
A muita gente
E eles acordam sempre de mau humor
A outros como eu
Crucificaram, queimaram vivos
Compraram com a televisão
Eu prometo ficar calado, anônimo
Não, ontem teve pão
Não tenho frio, ou medo
Eu não sei
Está tudo bem, obrigado
E o poema?


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

TRIBOS


Nos colocaram a todos no paredão de fuzilamento.
Se vamos resistir ou não,
Mãos dadas!
Daqui não sairemos mais;
Nem mortos, e principalmente, vivos!
Mãos dadas!
Não daremos mais
Nem o que é nosso,
E principalmente, o que não temos!
Mãos dadas, povo latino-americano,
Aí vêm eles,
Buscar o que desprezaram
Durante 500 anos ou mais:
O sangue do Índio fertilizou a terra,
O suor do Negro fez brotar metrópoles,
A Fauna morta criou espécimens raríssimos,
A Flora devastada cura com artigos de luxo,
E ainda há água.
Punhos cerrados, irmãos latino-americanos!
Aqui eles não ficam,
E principalmente, não saem:
Nem levando o que é nosso
Nem deixando o que têm de pior.
Aqui eles não entram
Nem enviam o seu lixo.
Não queremos espelhos nem computadores,
Nem pão nem pedra.
Não os queremos;
E que eles não nos queiram!
Não queremos nada do que já não seja nosso:
Nem inglês nem português,
Nem deodorant nem colônia.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Aos que ficarão


Os mortos devem temer a morte,
Pois é tudo que conhecem;
E seu mundo é temeroso!

Os vivos devem se fazer respeitar pela vida.
Viver é mais e é simples
E mais não sabemos.

Ah, viver! despertar paixões,
Perguntar, procurar, querer
O que não se responde, não está, quer ou não quer.

O inferno é onde os mortos sepultam os mortos.
Lá estão os mortais e os imortais,
Os grandes, os gênios, os sábios...

Os santos, os que não erram mais,
Aqueles a quem perdoamos;
Talvez perdoar seja matar!

Os que nascem têm a certeza da vida:
Um segundo, uma vida, uma eternidade,
Têm todas as possibilidades. Para que morrer?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Pau-de-arara interestelar


Do que eu sei do Brasil,
Para quem vem do Piauí
O Velho Chico é mais poético
Entre Petrolina e Juazeiro.
Do que eu sei do Brasil,
Faz sol do Chuí ao Oiapoqui;
No sul, entre nuvens;
No Carirí, puro.
Do que eu sei do Brasil,
Adoramos o Rio o ano inteiro
E moramos na garoa de Sampa.
Do que eu sei do Brasil,
A devastação dos recursos naturais,
A indústria da seca,
O caos dos grandes centros
E a distância entre as capitais
Nos fazem volver o olhar
Para Brasília,
Aí eu não sei mais do Brasil.
Do que eu sei do Brasil,
Se canta e se dança e se lastima
Em novenas e carnavais.
Do que eu sei do Brasil,
De Áfricas, de Ásias e de Oropas
E de um Índio
Que Caetano trouxe duma estrela...
Do que eu sei do Brasil,
Toquem violas, guitarras,
Tambores e penas
Para compor um novo Hino Nacional:

Pátria amada, Mãe traída,
Terra adorada subtraída,
Nunca iremos te amar;

Dos filhos teus, ingratos mil
Pelo mal que te fazemos, ó Brasil,
E jamais iremos te deixar!



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

dEsconSTruÇãO


Fui educado com
Os ensinamentos dos mortos.
Ouvia atentamente
Com se fosse gótico.
Mas li "A Construção"
Como se fosse lógico.
Isto ficou em mim
De algum modo sólido.

Não beijou a mulher
Porque não tinha.
Nem cada filho seu
Pois também não os tinha.
Subiu na construção
Como estivesse sóbrio.
Ergueu mágicas paredes
No patamar do óbvio.
Tijolo com tijolo
Com um encanto plástico.
Sentou pra descansar
Com um pensamento drástico.
Comeu feijão com arroz
Como roesse um osso
Que lhe ficou entalado
No meio do pescoço.
Não era príncipe, ou bêbado
Nem máquina, nem pássaro, ou sábado.
Estava acima do público.
Olhou para as paredes
Cada centímetro cúbico,
Derrubando tudo
Na cabeça do povo;
Pegou de outro livro
E começou de novo.

o pródigo o próximo
o último o único
o filho o próprio
o feito perfeito
o livro vivo
o trânsito o trâmite

TUDO RUIU!

sábado, 20 de agosto de 2011

Gotique


O amor tal qual o conhecemos
É um deserto gélido:
O vento surrando mudo,
Um silêncio cinza e duro,
Árvores mortas, sem flores nem frutos,
Folhas desgarradas sem destino;
As roupas pesam como uma cruz, uma prisão,
O estômago reclama fome,
Os pés não sentem o chão,
Os olhos não veem o céu,
Num cenário nevoento
Que mais lembra o palco de uma guerra
De horripilante mortandade de almas
E sepulcro definitivo dos sonhos:
Tudo é morte!
Mas basta pensar em você,
Quando você sorri,
A possibilidade de você dizer 'sim'
E o meu coração aquece,
Faz sol dentro de mim,
A névoa se esvai,
A neve derrete,
Tudo ganha cor, tudo é vida,
O meu sorriso volta,
O paraíso se refaz.

O fim e o começo


Solidão
O fim recusou-me o convite.

Solidão
Ouço o eco dos meus passos.

Solidão
Vejo um vazio espaço
Onde estão os outros.

Solidão
A garrafa na mesa
Um único copo.

Solidão
O silêncio do meu grito.

Escuridão
A sombra não me acompanha
Tão solitário eu ando
O fim não enviou-me convite
- Esta solidão! -
E é só o começo.


Iconoclasta


Não tenho algo a dizer!
Longe de mim com estas mídias todas,
Este microfone surdo,
Aquele holofote cegador
E a moça, bonita e vazia,
Instando-me sobre coisas que eu não sei;
Querendo que eu testemunhe
O que não vi;
Que eu preveja um futuro caótico que,
Ou faça-me santo
Ou evoque sobre mim
Toda a crueldade
Que pretendo lançar contra os outros!
Longe de mim este Panteão,
Esta Babilônia;
Ao inferno com o aplauso técnico,
A loucura dos autógrafo,
Longe de mim!
Deixem-me ser poeta... calado.

domingo, 14 de agosto de 2011

Aos que não nos viram passar


Enquanto teimamos contra a morte,
Seguimos ansiando pela vida,
Fomentando ideologias adormecidas
Que talvez nos tornem mais fortes.

O resto certamente virá depois,
Mesmo tarde, ainda não sendo noite,
Estaremos a suportar os açoites
Deste espírito que ora é um, três, dois.

Humanidade - raça de ajuntadores de tesouros -
Ao dia, faz seus funerais festivos;
À noite, encaminha-se, como um rebanho vivo,
Voluntariamente para os matadouros.

Embriagado por uma sensação de liberdade
Sulca o mundo andando sempre sozinho;
E a cada passo dado por qualquer caminho
Seus pés vão matando a uberdade.

Bate das botas a poeira das estradas,
Que de toque e cheiro reconhecem a terra;
E dos sem-destino, até quem mais erra,
Despreza o iminente risco de encontrar o nada.

A humanidade - seus tesouros, caminhos e ideologias -
Não percebe que da Existência só ela finda.
Tudo passou! e ficamos perdidos, esperando ainda,
O homem que virá, trazendo uma nova cronologia.



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Solidão nos grandes centros


Eu queria uma pizza.
Mas estou tão farto,
Quase enjoado.
Talvez emburrecer,
Desde que suportasse
A televisão.
Na verdade
Eu queria voar
E tenho a barriga cheia.
Eu quero qualquer coisa
Que não precise pedir,
Que ninguém me negue
Enquanto eu quiser.
Eu queria...
Mas já não quero...
E seria só depois...
Amanhã, quem sabe!?

poeira do tempo




Ainda passa pelo mesmo caminho
E não encontra ninguém.
Há um tempo para mudar itinerários,
Onde os bons costumam se esconder
Em horas difíceis,
Como a verdade se refugia
Quando o medo sai às ruas
Em dias de chuva ácida,
Quando só resta o que se destruiu.
A verdade na estrada
Deste homem sem passado
É que ele não viveu,
Só esteve de pé,
Como um monumento ao vento,
E o vento consome
O que não se move.

Receio


Eu sei que está tudo bem!
Só preciso organizar os pensamentos.
Nada é tão complicado como vejo.
No silêncio das canções
Que canto em silêncio
Vejo a solidão dos astros
Como um castigo sagrado, sublime.
O sentimento mais forte entre nós
Foi você me odiar por algum tempo,
Mas já está tudo bem!
Apenas os nossos sonhos viraram pesadelos...
...Ainda estamos aqui, ainda somos nós,
E vivos,
Até prova em contrário!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Ego sum qui sum



Do saber humano, de todo conhecimento

Só preciso que me ensinem como criam-se as teorias;

A prática só eu experimento.



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

No silêncio escuro


A sua imagem desapareceu

Foi o sol que dissipou
A insanidade da espera
A abrupta perda
Dois traumas para superar

Foi o tempo que se equivocou
O espaço se abstraiu
Nada enfim se encaixou
As palavras não vieram

Hoje no silêncio escuro
Penso saber dizê-las
E quando acendo a luz
Tudo se desfaz
A vontade se esquece

Foi a noite que durou um dia

Fome de mundos


Eu só sei quem sou
Quando choro em silêncio
Ou me escondo do mundo.
Os outros só choram aos soluços.
E sentir pena deles
Faz com que eu me perca.
Ela foi alguém que ignorou as minhas mentiras,
Desejou que eu fosse quem eu quisesse,
E eu desejei morrer.
Sempre houve uma verdade no meu sorriso.
Eu disse a ela dos meus medos,
De como os adultos se esquecem...
Ela gostava do que eu era
E eu era uma ânsia incontida!
Quando pensei haver mudado,
Ela se foi
E eu nunca mais fui eu mesmo
E nada sou do que não fui;
Só esta ânsia!

Onde estão os corações dos tolos


Eu disse que era só uma festa.
Dias atrás, era a casa cheia,
Uma felicidade arrogante...
Ontem, já o abismo sem despedidas.
Sem despedidas,
Eu saí primeiro... e já não havia ninguém:
Um vazio de mim,
Um vazio do que eu fui.
Voltei tempos depois
Para me convidar a sair
A ver o mundo que era meu,
Ainda vivo, ainda mundo, ainda eu:
Um dever de restaurar mundos,
Coisas, eus
Destruídos por um não arriscar
O que nem tínhamos,
Universos de perspectivas longínquas,
Sonhadas apenas.
Velas e incensos, orações fingidas,
Acusações contra o que cremos não-ser,
Quando deveríamos salvar a nós mesmos.

MTV


Dos poetas-mortos
Quando deixavam crescer o cabelo
Quando cantavam suas canções de amor
Quando andavam pelas ruas
Loucos
Nos anos oitenta
Eles tinham bandas, gangues
Repudiavam tudo
E rompiam paradigmas
Loucos
Como dissessem aos poetas vivos:

- Vivam como quiserem!
Mas não morram como nós,
Ainda vivos, ainda de pé,
Dentro da televisão.

...E devolvam o meu copo!


Dinheiro:
eles enxergam o que veem.
eu vejo apenas vultos de essências.
bicho de finas e delicadas mãos,
fera rebenta de um parto defeituoso,
monstro que lê:
duas monstruosidades numa linha reta
direcionadas ao contrassenso.

Luzes:
me cegam.

Paz:
eu, bárbaro.

Saber:
quero meu dinheiro agora.
uma foto, meu cabelo...
o céu não pode valer mais
do que o que eu tenho.

Na outra mão, os versos.


Eu sinto pena do que dura eternamente!
A lua era tão bonita
A um segundo atrás.
Quem é ela, agora?
A sombra de um instante passado?
E que eu sou?
O momento exato?
Um cansaço de perguntar porquê,
Como se respostas bastassem?

Sentindo frio


Qual é o seu destino?
Será preciso que eu te diga sempre?
Já é noite.
Vem, acorda os teus fantasmas,
Mostre-me a eles.
Veja como as coisas não são:
Eu sei quem sou
E posso te contar histórias
De como você não é.
Vai, conheça o teu medo:
Você foge de si mesmo
E já é dia.

Desespero sem causa


Estive dividido em quatro partes.
Mas, a algum tempo,
O corpo perdeu poder de voto.
Agora é o coração
Agindo emocionalmente,
A cabeça
Tentando usar a razão
E a alma
Lutando para unificar
Estas duas potências
Em favor de mim:
Um desespero sem causa
(estou exasperando)
Todas as mãos à cabeça
Sem ter mais como me segurar!


O impossível é o óbvio


É necessário, antes de tudo, suscitar a dúvida.
Eu, quando tive certezas,
Tornei-me arrogante e desobediente
E, aprendi da maneira mais dura
Que o impossível acontece, pelo menos,
Três vezes ao dia
E o resto, certamente, pode ser feito.
Fui deixando o mundo para trás;
Estou dando meus próximos passos;
Amanhã, outro lugar, outro sonho;
Eu realmente me perdi?
Ah, que bom é ter certeza... e duvidar!
Para encontrar a mim
Tive que suportar muitas verdades...
E nenhuma dor é tão lancinante!
E, diante de todos os temores
Suscitados pela solidão e pela dúvida,
Descobri que o impossível
Pode se tornar cotidiano.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

À cadela Billie Holiday


Ah, Billie,
Estou tão cansado
De fazer nada!

Ah, Billie,
Você já esteve cansada
De fazer nada?

Billie Billie,
Reclame de alguma coisa,
Qualquer coisa,
Queixe-se, lamente, pragueje...

Mas não renda-se, Billie!


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Vendendo amor, comprando sonhos




Por uma simples realização de fantasias sexuais
Lembro-me ter ofertado os meus sonhos
E bens materiais.
Mas Smirna também queria ter prazer.
A princípio recusou,
Mas Smirna também precisava viver:
Foi quando levou tudo o que eu tinha,
Deixando garrafas vazias, rastros de camisinhas;
Levou meu dinheiro e meus sonhos.
Fui mais um negócio, eu suponho.
Um cara deu-lhe um carro,
Outro pagou-lhe muito, muito bem,
Ao final, deu-lhe um escarro.
Smirna debocha de todos eles.
Para ela não são nada,
Não faz distinção entre estes ou aqueles.
Mas Smirna também tem sentimentos,
Guardados sabe ela onde,
Trouxe-os ao meu apartamento.
Entrou e trancou as portas,
Fechou as janelas e abriu as pernas:
Tudo o que era meu estava de volta.
Deu-me carro, dinheiro e apartamento,
Fez distinção entre mim e os outros.
Em seguida fugiu, saiu por aí
Comprando quaisquer sonhos, vendendo seu corpo.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Preguiça


Quem, como eu,
Está à frente da humanidade,
Pode se dar ao luxo
De caminhar bem devagar...
Arrastando os pés...
Fazendo pirraça...
Como se rumasse para uma cruz
Que não está sobre seus ombros
Nem tem já os braços abertos.
Nunca houve razão para ingerir
Estas drogas que tanto me aceleram
Como se eu tivesse pressa
De rejuvenescer e morrer.

Nada deste mundo


Era um homem solitário:
Deixou todo amor que lhe foi dedicado
Por um momento de solidão
E não consta, até hoje,
Que tenha chorado por companhia.

Era um super-herói:
Suportou todas as pancadas da vida
Sem jamais encolher o peito
E não consta, até hoje,
Que tenha jurado vingança.

Era um grande palhaço:
Zombou das luzes coloridas da ribalta,
Preferindo o obscurantismo das sarjetas
E não consta, até hoje,
Que tenha reclamado fama.

Era um verdadeiro artista:
Trocou toda a grandiosidade do mundo
Por uma vida de bar em bar
E não consta, até hoje,
Que tenha pedido troco.

: Dizia tudo que pensava...
E pensava antes de dizer.

Estranha busca


A guerra é inominável,
Crível somente porque somos humanos,
Legítimos representantes do inferno na terra.

Na guerra é assim:
Como que por um momento justo,
Deus dá a coragem,
O Diabo empresta a malícia
E assim seguimos a evolução,
De passos largos ao retrocesso.

O inimigo, para financiar a sua luta,
Agora vende decepções em spray
E formato televisivo:

- Isto é a paz!

Vazio


Não escrever nada
Não é o fim.
São apenas palavras.
A dor é mais real em mim.

Eu quis fazer um poema negro
Tendo a noite como musa.
Expressei tanto pavor e medo
Que compreendi sua recusa.

Fuja do meu abraço
- Ó mulher cruel -
Trazendo paladar amargo
À boca que te beijou com mel!

Janela íntima


Daqui eu vejo a lama:
Os poetas comprando sexo
E drogas.
Não há quem os respeite.
Há quem roube poesias.
Tento me manter à distância
Com um verso indignado
Que não diz nada!

Daqui eu vejo o caos:
Os poetas se vendendo.
No mesmo lote:
Poemas, alma e sentimentos.
Não há quem se importe.
Há quem devolva a dor.
Tento refazer e publicar
Uma poesia que me foi rasgada
Por querer dizer tudo!

Espírito do mar


Navegar comigo
É Deus soprar a vela
E eu dizer:

- Sou eu a torrente dos mundos!
O tempo sou eu!
O vento é meu!
E eu tudo mudo!

E o mar responder:

- Deus sou eu!
E Deus lhe guarde!


Antes que tudo se dissolva



Neste momento,
Neste exato momento,
Há uma estrela explodindo
Em alguma galáxia distante,
Há pessoas morrendo de fome,
Crianças abandonadas
Ou institucionalizadas,
Mundos em ruínas...
E vocês preocupadas com roupas!
Ora, que tudo se dissolva!
Eu quero é andar nu.
O meu mal é fome:
Eu tenho tanta fome
Que chega a ser abominável.
Eu tenho tanta fome
Que a minha fome me farta.
O que eu quero
É me fartar desta fome
E depois... ah!...
E depois... tirar a roupa!


quinta-feira, 5 de maio de 2011

A paciência dos santos


A primeira pedra
Ele aguentou sem gemer;
Nem um gemido sequer.
À primeira vez
A maioria faz assim ( ou age assim)...
Não entendo!
Na segunda,
Bem, era jovem demais.
Outras viriam, teria tempo:
Começava a despontar
O defeito do conformismo.
A terceira,
Essa também passou.
Estava planejando defender-se...
Da quarta em diante,
Veio o desejo de vingança.
A partir de então,
Sempre que era atingido
Olhava o céu perguntando
Que nova violência era aquela.
E, sem cansar de perdoar e esquecer,
Tombou sem vida.

_________________________________
Martírio de Estêvão ante Saulo de Tarso.

Jardins de Narcisos


Ampla vista de outros horizontes
Nas sombras dentro de mim,
Um minuto a mais de escuridão,
Turvo o coração,
A sonhar venturas distantes,
Ilusão e pó.
A estrada desenhada com um dedo
Na areia de uma ampulheta
Cósmica e palpável.
E eu sem mim,
Sem tempo, sem ilusão, sem rumo.
E eu em mim,
O coração, um sonho:
Outros horizontes.

Disse as palavras que fui dizer
E parti.
Ouvi me chamarem: houve resposta.
Já não quis saber.
Toda uma eternidade de guerras
Quando falavam de paz...
E o sangue na garganta
Comoveu minhas mãos,
Moveu-me ao assassínio.
O arrependimento não conserta
O que o sangue-frio calcula em silêncio.
O remorso chega um pouco depois,
Já morta a vítima, justiçado o algoz,
E o morto de pé,
Com a adaga em punho.

Os velhos tempos esperam nos jardins
Mas nunca entram, nunca mais.
Eu até consigo redesenhar teu sorriso
Enquanto te sinto me olhando,
Com as mãos pálidas e frias,
E te abraço a sombra vaga,
Lembrança da paixão febril
Do amor primeiro,
Um hálito quente, tão perto,
E amamos como amávamos
Na meninice das nossas fantasias...
Mas o tempo,
Senhor das saudades,
Recupera seu tecido,
Refaz sua mocidade,
Deixando o que é velho,
O que é passado
Só com as memórias,
E temos, novamente,
Os jardins vazios, em flor.



Mudou minha melodia


Não me chame
Você sabe o que fazer
Você brincou com tudo o que havia
Tudo está voltando para você.
As coisas são
Como você desejou que fossem.

Não me espere
Eu não voltarei pela sua beleza
Olhos como os seus
Carícias como as suas
Podem ser esquecidas;
Tudo é como você deixou que fosse.

Nada deu certo
Não podemos viver a ilusão
De um sonho que se perdeu
Eu quase me lembro do seu rosto
E do éramos nós
Resto apenas eu.
As coisas são como nós somos.

Pássaro sem asas


É preciso um espelho
Para dizer quem sou,
Para me reafirmar.
Mas não preciso de muros
Para sentir-me preso...
E as grades
Só impedem a entrada.
De repente, a vida
Sempre foi esta prisão
- Eu-prisioneiro -
Das grades para fora.

poetas-mortos


Alimentar os mortos.
Depois que o sol se escondeu
Para não testemunhar
O que não queremos ver.
O que queremos ser
Os mortos o são.
E nós a contar as suas façanhas,
Ideias...
Os mortos são só
O que vivemos por eles.
Nós, mortos,
Sem quem viva por nós.
O que os mortos querem
Nós o somos.
Aqui os mortos nos enterram.
Depois que o sol reaparece
Nos flagra saudosos
Do que não vivemos,
Nós, ainda vivos,
Alimentando os mortos
Quando deveríamos sepultá-los
Ou simplesmente deixá-los para trás.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Esperando por ela


Foi retirada dos meus ombros
Uma cruz pesadíssima
Que não redimia os meus pecados
E sim, me trazia
A culpa e os medos de um facínora.
Isto me veio como um perdão:
Eu quero viver mais!
Eu estive acorrentado ali,
Por algum tempo,
Experimentando particular amargura
E dizendo não querer mais...
Mas tudo volta
E eu estou sempre aqui.



Sem Bandeiras


Ouça o silêncio!
É quando o ódio toma forma.
Mentes macabras planejam o caos
Enquanto parecemos dormitar.
Eu queria trabalho,
Sem ajuntar tesouros,
Para não provocar ganância e conflitos.
Agora, a minha tropa está encurralada.
Não sabemos pedir ou conceder perdão.
Esqueçam suas vidas, ideais, filhos,
Esposas, pais e namoradas:
Não vale a pena voltar para casa!
E nem queremos vingança;
Ninguém precisa pagar por isto.

Deuses de barro, Homens de ferro*


O que acontece hoje
Já não sei dizer.
É o tempo passando,
A história criando mitos:
- Quantos mártires farão de mim!?

As religiões endeusam
Os homens, absolvem almas
Enquanto a tecnologia avança
Trazendo a ganância e a descrença:
- Quantos santos farão de mim!?

____________________________

*Inspirado em: Homem Boi Berro,
de Chico Miguel e Odorico Carvalho.

Cavalo



E quando à noite
Vier aquele fantasma macilento
A atormentar-me o silêncio claustral
Dir-lhe-ei:
Deixa-me,
Não sou mais
Aquela estranha criatura
A quem chamavas EU.

Transgressão




Eu me senti um estranho naquele quarto.
E logo que aquela mulher se foi,
Me joguei a um dos cantos, desesperado,
Para não encarar o espelho.
Foi a primeira vez que senti asco
Da geografia do corpo feminino...
E me veio do âmago
Uma repugnância de engrossar a saliva.
O meu corpo, nua e cruamente ridículo,
Tiritava envenenado e inerme,
Olhando o quarto, agora vazio,
Pedindo perdão por transformar amor em devassidão...
E esqueci, por algumas horas,
Que estaria apenas fazendo sexo.

Revés


Quando fazemos
O que queremos aos outros
Eles fazem conosco
O que não queremos.
Eu a amei e a decepcionei.
Algum dia,
Quando o pranto secar,
Quando o remorso se for
E a lembrança me trouxer
A nobreza das lições apreendidas,
Terei lhes contado
O que ela fez comigo.

Busca


Ah, quantas vezes fixei o olhar
Endereçado ao vazio
Para encontrar o tudo
E nada veio me socorrer!

Ah, quantas vezes movi o olhar
Endereçado ao tudo
E encontrando apenas o vazio
O nada veio me socorrer!

Gritei tudo mudamente
Ouvi tudo surdamente
Sem entender:

O tudo era muito pouco.
Eu vi o nada
E o excedeu em quantidade.

Sem memória


Saudades?... Não.
Na infância
Vivia entretido com brinquedos...
E logo a abandonei para crescer.

Na adolescência
Entrei louco e saí drogado.

Na idade adulta estive bêbado
Durante treze anos
E não sinto falta disto.

...(silêncio)...

Ah! as pessoas?
Na vertigem e no medo
Que sempre sentia
Me escondia e me esquecia das pessoas.

O tempo de uma saudade


Eu estou mudando.
Mudando para melhor
E em velocidade contentadora.
Você e o resto do mundo
É que não concebem...

Tão distraído eu estava
Não percebi seu cinismo, e malícia,
Quando me convidando
Para caminhar no céu.

Giramos em descompasso tal
Que parecíamos dançar todos os estilos,
Abalando mundo em dentro,
Um sonho! e só nós dois o vivíamos...

Mas o seu cabelo cresceu.
O período de transformação cessou
E você não mudou em nada:
Tornou a ser o que era.

As fotos são descartáveis,
Não duram o bastante
Para que nasça o desejo de rever-se,
Nem a saudade é tanta:
Não durou o tempo de uma saudade;

Não era amor,
Nem era você:
Não há o que lembrar.


In-fólio


Quando eu morrer
(Sem ter publicado nenhum livro)
Será que puxarão o meu saco
Como fazem
Aos poetas-defuntos?
Ou finalmente
Me será permitido
Descansar dos mortos?


---------------------------------------------
Vivo de canalhices,
mas quando morrer,
não quero meu nome na boca da canalha.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mar de insânia


Psiu! cale a boca!
Estou tentando sofrer em paz
E você está me importunando.
Nas sextas-feiras, as paixões ficam mais fortes
E eu, mais louco.
Estou nadando num mar de insânia.

Foi crescendo dentro de mim.
Quando vi, era isto.
Ela mudou. Não é nem sombra
Da que eu amei.
Deveria ser fácil esquecer - mas não!
Estou cada vez mais...
Estou navegando num mar de insânia.

Com o sofrimento é assim:
- Dor, resignação, esquecimento e recompensa -
Passa a fazer parte da gente.
Chorar de amor não é sofrer.
Estou atravessando um mar de insânia.

Não esqueça de rezar,
Não pense que está tudo bem
Enquanto estou me transtornando.
A sanidade é um náufrago,
E o mar, pura insânia.


Convalescença


Penso que seja menos por mérito
Que pela misericordiosa providência
(E dou graças!)
Somente tenho dormido como justo
Sonos tranquilos e reparadores,
Povoados de sonhos possíveis.
Um deles mostra-me a proximidade
De um relacionamento sensato e prazeroso:
A bênção de um amor sereno.

indiferente


...Troca de fluídos corporais.
Foi sexo? foi amor? fuga?
Nem o sei!
Acho que foi meio maquinal.
Um golpe traiçoeiro
Desferido em ambas as direções.
Não faz diferença!
longe de mim tudo é permissível.
Até o amor.

Ilhas de solidão


Ela esteve aqui quando os aviões caíram,
Quando houve uma tempestade de raios,
Quando o sol se escondeu por um ano,
Exigindo que eu controlasse os elementos.

Ele esteve aqui quando o chão se abriu,
Quando não havia quem acreditasse,
Quem me estendesse a mão,
Com os braços cruzados
Querendo que eu dissesse palavras mágicas.

Os outros já haviam partido.
E enquanto o mundo ia ficando cada vez mais frio,
Quando a noite e a solidão me acalentavam,
Tu chegaste,
Com um olhar parado e ávido,
Com duas mil perguntas caladas,
E alguns desejos,
E te falei que também eu já não estava aqui:
Eu sou as cinzas deste lugar.


Entre Ela e Você


Invento ansiedades para te ver
E sinto saudades de propósito.
Estou com saudades dela agora.
Ontem já estava; hoje, ainda mais.
Vai aumentando a cada dia...
Eu não estou em paz,
Estou esperando a sua chegada.
Poderia te ligar, mas não.
Gostaria de dizer pessoalmente.
Sim. Assim é melhor... Mas não sei.
Às vezes é tão confuso!
Fico horas pensando em te dizer
O que se passa comigo
Quando estou pensando nela.
Mais confuso ainda é escrever:
As palavras veem facilmente,
Mas sempre troco os pronomes.
ELA... VOCÊ...
Eu amo tudo relativo a TI.

Os aneurismas


Olhando as velhas fotografias,
Parecia tão vivo
O que morreu em mim.
Eu ainda sou ele, morto ou vivo!
Ele está aqui de alguma forma:
O tempo o levou e o trouxe de volta.
O que o traz aqui?
Sou eu?
Quem de nós dois morreu, enfim?
E o que será doravante?
Parece que vai explodir!
Rasgar as fotos não muda nada.
Olhar as fotos pode ser loucura.
Quem de nós sobreviverá em mim?
Está doendo um pouco,
Me deixando confuso.
Às vezes é melhor esvaziar a mente.
Às vezes, a mente em branco
Pode fazer voltar o que ainda sou.
Por que ele vai e volta?
Deve está faltando alguma coisa nestes aneurismas!


poeta do silêncio



Eu me calo sim

Em aula de grego

Não gasto meu latim.

Quatro estações


"Para encontrar o Diabo
Não é preciso acordar de madrugada
Nem andar uma légua."
O abismo pode estar do outro lado da porta.
Às vezes, o precipício é a cama
Onde você dormiu um sono tão confortável
Na última noite,
E o Diabo é você mesmo.
Para quem assimilar isto,
O inferno pode ser
Apenas um verão mais quente no paraíso
Ou um inverno inclemente...
E ainda existem outras armadilhas.

Perto do fim


Sozinho no escuro do quarto,
O som tocando no rádio.
Ela não vem, eu sei!
E a inspiração?
Ela não vem, eu sei!
Toque outra canção.

Estou esperando por mim mesmo,
Estou considerando os meus erros.
Ela não vem, eu sei!
Só me resta lamentar.
"Ela já vem," a ilusão se refez:
"Sonhe que ela virá."

Estou planejando um futuro,
Sozinho, porém seguro.
Ela está em outra!
Outra canção?
Ela prefere qualquer outra coisa:
O nada ou a solidão!

Ela que se solte,
Eu rezo para que não volte.
Sei que cometerei outros erros.
Toque uma nova canção!
Se os caminhos são os mesmos
Já tenho outro coração!

Ela não virá,
Eu tenho outro coração.
Me deixe sonhar,
Toque outra canção.

Síntese


Eu não sei quem sou
Quantos sou
O que farei de mim
Ou que farão de mim
Em quantas partes me dividirei.
Seja lá como for
Eu sou a parte mais importante de mim
Eu sou o Todo
O Múltiplo do meu ser
Ou ainda
A Totalidade dos seres que me compõem.
Eu sou
(Deste que sou, disto que sei)
Ah, um pequeno universo!
Aquele que busca a si mesmo
Durará para sempre.
Existem tantas vidas reunidas em mim
Eu sou tantas coisas
Que não consigo me conter.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A Terceira Guerra



Esta geração chegou onde queria:
Fazer sexo, usar drogas,
Falar besteiras em programas de tv
E aparecer em comerciais de refrigerantes.

Talvez não sejamos culpados,
Mas, as nossas cumplicidade e omissão
Custarão os nossos sonhos de liberdade
E as nossas vidas.

Agora as armas se modernizaram:
Ontem eles atacaram
Com a cocaína e a internet,
Fazendo milhões de escravos...
E as estatísticas
Não sabem calcular os mortos!



Cadê?


Esteve aqui,
Ali no sofá, na cozinha,
Em toda parte.
Mexeu o pezinho ao meu blues,
Folheou meus livros,
Passeou pelas minhas canções e devaneios,
Contaminou minha poesia.
Como outro a levaria
Sem música nem dança,
Sem versos, sem rosas?

Autópsia




A alma pura havia se maculado
naquele corpo de aura funesta
e refletia, então, a própria flama
dos gênios da escuridão.
A matéria, inóspita até mesmo
para as bactérias da purificação,
tornou-se uma carne de odor insuportável.
O corpo daquele homem,
já em avançado estado de decomposição,
fora antes recusado pelos vermes
que agora o estavam comendo vivo.
Ah, hóspede dos azedumes dos jazigos!
- de vômitos e escarros nobres -
aonde está a riqueza do teu orgulho
que te condenou, eternamente,
a embrulhar os estômagos
dos herdeiros naturais da tua podridão?

Enquanto isso, nas grandes cidades...


Se inventaram algo melhor que a solidão,

traga para mim

e me deixe só!

Dia hoje de sempre: Dia das Mães


"Mãe é o nome de 'deus' nos lábios de uma criança."
Edgar Alan Poe

Eu queria que ela estivesse aqui; 
Que me pegasse no colo;
Que me fizesse cafuné;
Que me chamasse meu Zezinho;
Que me explicasse, novamente,
Todas as coisas,
Como se eu tivesse
Apenas quatro anos de idade.
Porque eu ando perdido
Qual criança
Precisando que alguém
Me segure pela mão.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A GUERRA DE UM SÓ



Estava tudo preparado
Passei noites entrincheirado
Esperando qualquer que se movimentasse
E parasse
Para que o tiro saísse perfeito;
E nada feito!

O meu coração está na casa do luto.
Mas não temos tempo para chorar
Porque aqui morremos um a cada minuto!

Eu vinha de um amor ruim,
Precisando apressar o fim...
...Alguém comigo, que caminhasse
E voltasse
Para que o ódio fosse perfeito;
E nada feito!

A noite tem vociferações atrozes.
E quando vem o silêncio
Eu continuo ouvindo vozes!

A causa começou perdida
E havia custado a minha vida.
Era preciso que alguém acreditasse
E se acovardasse
Para me transformar no mártir perfeito;
E nada feito!

Nesta guerra somos espectros e máquinas manipuláveis.
E de nada adianta ajuntar moedas
Porque a paz custa fortunas incalculáveis!

Ah! acabou a minha revolta
A solidez virou escombros à minha volta.
Era mister que muita gente pensasse
E lutasse
Para que o curso rumasse perfeito;
- Sim e não - nada feito!

Mesmo vencido, onde tudo se distorça,
Enquanto troçam sobre o meu fracasso
Eu continuo juntando forças!

E, recluso em casa, entre versos e suspiros
Eu continuo escutando tiros!

Solilóquio derradeiro


Na última noite
Em que ninguém me amou
Eu ouvi os seus passos indo embora
Ouvi a sua voz
Dizendo adeus a outras pessoas
E lembrei de quando
Havia dito me amar
- Mentira! -
Mentiras
Foram o que nós fomos.
Quando me vi sozinho
Não pude esperar
Que você voltasse atrás.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Breu definitivo


Alguma coisa em mim está morrendo.
E semelhante processo não cessa.
Vou recolher meus sonhos enquanto chove.
Ao estio, sairei a semear ideias,
...Inda que desprevinido e de mau jeito...
Eu estive sonhando uma vida inteira
E os urbanos passaram a me perseguir.
Fuja, maluco, da esquina!
As ruas não estão seguras:
Nós somos a minoria
E enquanto sobrevivermos
Isto não cessará.
Aqueles que atiram contra o breu
Não divisam mulheres nem crianças.
O inimigo só não conta
Com uma desgraça ainda mais avassaladora:
Cada vez que algo morre em mim
Eu renasço
Mais forte e menos escrupuloso.

Tome este anel




o Amor,
um universo dentro de mim,
faz-me infinito;
a minha mão estendida a ti
com um poema escrito;
a minha boca buscando a tua
a carne nua... a carne nua
a febre, a cura, o grito
o encontro dos meus olhos com os teus
a fome saciada
e unindo nossas mãos, a mão de Deus.

Um estranho ao espelho


Abominação.
No fundo tudo é abominável.
O mundo é abominável,
As pessoas, a vida...
O suicídio é abominável.
Não serás tu também abominável?
O desviar dos outros
- Os outros sou eu no espelho -
Eu mesmo já abominável.

Farto de tudo


Estou em guerra com a fome.
Trincar dentes é meu brado
E a minha arma;
Comer a minha própria carne
Foi minha vingança.
Mostro meu esqueleto como estandarte:
Não chorei, não clamei.
Às favas com a tua piedade!
A tua pena é covardia,
Medo de me enfrentar!
Qual é a tua arma?
Cadê tua coragem?
Olha pra mim,
Combate-me com o olhar (ao menos)
E vê como eu morro
- De pé -
E diz se sou escassez
Ou se me fartei de tudo!

Certezas


Tudo o que faço precisa de você.
De repente, um silêncio no quarto,
E o coração,
Que já não fala por si mesmo,
Segue a pulsar
Sem conseguir explicar
Os erros que cometeu:
É que antes não havia você
E tínhamos desculpas para tudo,
A solidão era um abrigo,
Até não podermos mais fugir da tua presença.

Tudo o que penso precisa de você.
E o sono não vem;
Talvez, por não haver sonhos;
Talvez, por não querer realizá-los;
Certamente porque tudo o que sinto
É você.

Quando a cena muda


Eu fiz daquela cena sangrenta
A minha poesia.
A solidão que ela me trouxe
Se instalou em mim
De um modo inebriante
E compôs toda a cena.

Então, me veio o tempo,
Revirando as feridas abertas,
Fazendo doer e esquecer
Na vertigem do vazio
Como um ópio sem ilusão
E descompôs toda a cena.

Por motivos de força maior ou loucura
Apoderei-me do Ser Tempo.
As trevas vieram, veio a luz;
Sanidade e insanidade cessaram o combate,
Abriu-se em mim a contemplação do nada
E a explosão da concepção
Do caos e do existir
E recompôs toda a cena,

Abnegação


Leve o tempo que quiser!
Você tem necessidade
De ver e viver todas as coisas;
Experimente a fundura do abismo
E quando não houver outra saída,
O que restar de mim
Estará presto a receber
O que restar de você.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A cura pelo mal


Tudo volta!
É que desta vez me pegou acordado,
Maior e mais sólido, mais experimentado,
Com força e planejamento para o embate.
Eu sou o vetor desta nova mudança.
Novamente sozinho, sem paixão,
E com considerável reserva de veneno:
Mortal para os outros, antídoto para mim
E, como só me preocupo comigo,
Não tenho nada a temer.
O ódio, enquanto esteve em mim
Me fez um mal terrível
E, como tardei em repeli-lo,
Me curou de chagas mortais, como a hipocrisia.
Dest`arte, aprendi, também, a odiar.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ciclo


À procura da cura
A ferida a dor a loucura
Onde está a cura?

À procura da vida
A dor a loucura a ferida
Onde gastei a vida?

Reabrindo a ferida a lança
A loucura a dor a vingança
Onde o ódio me alcança?

Rebuscando o amor
A vida a ida a dor
Onde a sorte me levou?

Revivendo a dor
A lição a recompensa no labor
Encontrei o amor:

A vida - a ferida viva
A dor - vida vivida
O amor - loucura incontida!

Hereges


Deixe o vento passar.
Nestas nuvens
Os anjos são anjos mesmo.
Mas existem demônios aqui
E, antes que nos acusem
Por não estarmos rezando
De olhos fechados para a vida,
Vamos embora!
Irônico é que não somos nós
Os coletores das igrejas,
Nem os carrascos das santas inquisições
E nem somos os feiticeiros
Que roubam almas através da televisão.
Só rezamos de olhos bem abertos,
E isto, sim, parece um mal maior!