Pierrot

Pierrot
la tristesse

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Guardador de poemas


Um homem senta-se
À mesa de um bar e escreve
E diz-se poeta.

E sobre o que escreve?
Escreve cousas mui loicas
E por ser louco
Diz-se mais poeta.

E alastra os guardanapos
De poesias suas.
Tendo lido o Pessoa
Sendo leitor do Pessoa
Diz-se mais poeta ainda...

Por maldizer de Deus
E compreender a natureza
E por ter amado uma mulher,
Por este feito
Diz-se mais perfeito!

Imune ao amor


Eu prefiro derrubar o governo
No meu partido em desgoverno;
Eu prefiro defender os negros,
Afrontar troianos e gregos;
Mas não chorarei a sua dor,
Eu estou imune ao amor.

Este povo covarde e sem memória
Elege seus ditadores ao longo da história,
Fazendo carnavais com tanta pompa,
Negligenciando quem sobe ou desce a rampa.
Não mais ouvirei o seu clamor,
Eu estou imune ao amor.

Tão poucos armam uma luta
Para livrar tantos filhos da puta!
Para ganhar lugar no meu coração
Traga-me cabeças, não paixão.
Não me faça cara de horror,
Você não sabe o que é o amor
E eu estou imune a você.

Alguns sonhos depois...


Eu bebo essa dor...
Choro porque me sinto
Vagar vazio pela vida,
As minhas noites resumem
Um dia triste
E tento mudar em vão.
Fico tão indefeso
Que o pranto tenta rolar
Durante um desenho animado
E, ainda querendo ser herói, o controlo.
As canções tornaram-se enjoativas e ordinárias,
Eu canto com voz de quem está perdido,
À procura de ser alguém
Que eu mesmo vivo a combater.
Fica difícil saber quem sou:
Projeto um personagem
E o espelho reflete uma imagem distorcida.
Ainda assim, consigo sorrir espontaneamente,
E este sorriso quer semear a paz,
Sem entender porquê me fazem guerra.


No céu por um minuto


Fui convidado ao céu
E lá cheguei filosofando;
Tinha a alma dilacerada
Mas ainda estava cantando.

Deus mandou-me entrar;
Estava brincando com as nuvens;
Parou um pouco para interrogar-me:
- " Filho, quantos nomes tu tens?

Eu quero que entres,
O céu saúda-te em festa;
Dizem que sabes sorrir:
Comédias... - há alguma graça nesta?"

Quando cheguei ao céu,
Mandaram sentar-me com outros Zés,
Pisei as nuvens mais divinas;
Devo tê-las maculado com os meus pés.

Bem-vindo a São Paulo


Tentei falar a língua
Destes idiotas
Mas eles não dizem
Coisa com coisa.
Leio seus lábios
Mas não entendo
Seus corações;
Creio no que dizem
Mas abomino
O que sentem.
Tentei falar a sua língua
Mas eles
Não compreendem nada.
E fiquei de longe
Observando
Seus conflitos e preconceitos.

Além da linha do horizonte


( parte 1 )

Éramos duas crianças apaixonadas
Descobrindo um brinquedo novo.
Ela perguntava o meu nome,
Fazia o tempo parar por nós.
Cada gesto seu, o mais simples murmúrio,
Gerava enredo para um poema
E sonhos para uma noite inteira...
Até que um dia amanheceu distante.

( narrativa )

Dizem que ela é bela.
Eu já não sei o quanto.
Dizem que me deseja,
Mas não se aproxima.

( coro )

Na verdade, o amor
Precisa de duas pessoas
Para ser completo.
Eu já não sei dizer
O que ela faz por nós dois.

( parte 2 )

Eu a vejo passar abstrata.
Só o olhar é concreto:
Chumbo contra o desejo.
Ela não sabe brincar de sedução:
Recolhe para si toda a luz
E se esconde dia e noite.

( narrativa )

Dizem que me ama,
Mas é difícil chegar até ela.
Dizem que me olha
Com o mesmo carinho,
Mas foge aos meus olhos.

( coro )

Na verdade, o amor
Precisa de dois olhares
Para saber ao certo
A distância entre os corações.

Notícias do mundo


Eu tive um sonho
Em que um anjo me falou
De um mundo de paz,
De sensibilidade e sensatez,
E quando acordei
Ouvi que haviam
Assassinado Lennon.

Ouvi no rádio
Uma canção inspirada por Deus
Na qual o Inner Circle
Falava Dele
Como um jardineiro
Cuidando de flores inocentes...
Na realidade a fome e as guerras
Murcham e matam as Crianças
Que são o meu ser.

Exijo que alguém me dê contas
De quantas vidas
A guerra fez nascer,
Quantos já venceram este jogo
E por quantas moedas
Eles compraram o Céu!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Bagdá (sem T.V.)


À efemeríade do colossal momento,
Ajoelhado, pasmo, prostrado ao pé do túmulo,
Esforça-se o poeta para entender tal cúmulo
Sob a paz teleológica deste dia tão sangrento.

A guerra, a fome e a morte - este acúmulo:
Desgraçada noite de infernal tormento.
Na face da terra tudo é estremecimento:
Aos filhos do ódio não há maior estímulo.

O sacrifício da ambição do homem:
Petróleo e orgulho sob o fogo se consomem
Como as almas dos que contam a história.

Assim o progresso produz a fome
E o homem sem nome e sobrenome
Será o vilão em nossas memórias.

Gênesis


Maria e José.
Parece que ELE
Escolheu pela simplicidade.
Ah, VELHO POETA!
Antes havia o caos,
Aí, ELE criou:

KAUS.
________________________________

Em agradecimento a:
Jorge Mautner
Gastão Moreira
Clemente Nascimento
Pelo programa MUSIKAUS.

Amenidades



Um universo
De pequenos instantes
E outro sol
Na mesma manhã outonal.
Tudo o mais
São reticências
E bem mais à frente
Duas primaveras.


Sem Deus e Sem Poesia



Estou à frente da humanidade,
Emperrando o progresso.
Deve ser esta a razão
Pela qual
Tentam me atropelar.

Mentes exiladas no Universo-Umbigo
Fazem esta segmentação cultural
Entre os jovens,
Tornando-os
Espectros e máquinas manipuláveis.

Sim!
Um novo mundo é possível,
Possível e necessário.
Busquemos então um novo mundo!
E quanto ao resto de nós,
Ora, nos suicidemos!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Paixão-errante


Acabou-se o desejo
Já não lembro o seu rosto
Do mel do seu beijo
Foge-me ao paladar o gosto.

A dor foi esquecida
Naquela paixão sem sorte
Após ter dado a vida
Recebido alheia morte.

Agora o corpo treme, está frio
No quarto, quatro paredes ignotas
Contemplando inerte, horas a fio
O vinho, aquecedor dos corações dos idiotas.

É tempo de brindar à solidão
Queixume de hábito do pobre amante
Que brada violências ao coração
Condenando-o pelo sentimento tão errante.

E finalmente, o doudo poeta morre
Desde que desistiu da poesia
O poeta mudo, a quem nenhuma palavra socorre
Delírio da auto-morte, uma hora de agonia.

Um dia para chorar


O orvalho sobre
as folhas da manhã
é que me traz
este afã.

Ao meio-dia
uma cadeira vazia
à mesa farta
que não sacia.

Uma solidão maior
ao calor da tarde
um medo que gela
uma alma que arde.

Pergunto à fonte límpida
o porquê desta mágoa
ela se tornando insípida
só responde: - água... água...

À noite é cantar
dormir e sonhar
e quem sabe sonhando
ainda acorde cantando

E veja tudo recomeçar...

Acampamento urbano


Inércia ou dormência intelectual.
Já estou cansado de combater
O que eu mesmo tornei invencível...
Ah espíritos jovens!
Ah homens da mocidade!
Para que alçastes tantos vôos,
Tantos sonhos,
E somente dormem?
Vejo suas almas consumidas
No consumismo de nike e coca-cola.
Mas podemos culpar o governo.
Agora, vamos embora,
Procurar um canto mais sossegado
Para exercer a covardia.

Madrugada vazia


E olhava para o vazio
E via cousas mui loicas.
Talvez visse um mundo perfeito.
Mas o que é um mundo perfeito?
Ele não acredita que exista.
O que via ali, então?

Olhava porque a paisagem estava lá
E a visão era dele.
Fora outrora o seu cotidiano.
Mas ele não respeita cotidianos;
O que contemplava ali, então?

Tudo era vago como o seu pensamento.
Fútil como uma doutrina religiosa.
Mas ele é ateu.
O que cultuava ali, então?

Talvez, estivessem ali,
A solidão e o tudo:
A essência de seus poemas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Meus monstros


Perto de mim
Tudo murcha e morre...

A mão, que assassinou
Todos os personagens
Destas trágicas epopéias
Daria, agora,
Cabo do próprio autor
(Suicida)
E todas as criações
Ganhariam vida outra vez.

Longe de mim
Tudo cresceu.
Não sei com que
Extraordinário poder.

As últimas forças
De um desesperado
São forças extremas.

Esculturas de gelo


Há lá fora
Um outono em construção.
Os climas têm mudado.
Os ventos que vêm do sul
Trazem amenidades.
Aqui dentro há chuvas,
Sentimentos tempestuosos e efêmeros.
Houve um coração
-Talvez -
E se foi sol,
Embuçou-se na escuridão das horas frias,
Depois de mais uma tormenta,
Preparando-se para outro inverno.



O senhor dos jogos


As eternas chagas devem ter cicatrizado
E o Cavaleiro-Púrpura ainda ronda os campos.
Nos nascedouros, as cores violentas de fetos nus;
Noutro quarto, o odor fétido de homens ainda vivos.
Haverá medo! tememos a nós mesmos
Por termos consciência da paz que almejamos
Enquanto trabalhamos nas carnificinas.
Nada! nenhuma verdade ou paixão
Nos levará aos céus!

- "Dá-me um saco de ouro
E hoje não haverá guerra:
Voltarei para casa no meio da noite
E instruirei os meus filhos
Na perversa arte de derramar o sangue do próximo!
Dá-me um pouco mais de ouro
Por uma noite de trégua,
E poderão lamber as suas feridas,
como cães e, como cães,
Saborear seus próprios vômitos
E ajuntar as suas vísceras num caldeirão!
Dá-me um punhado mais de ouro
Por mais um dia de paz e funerais.
Depois, refaçam as suas fortalezas:
A destruição recomeça com a calmaria!" -


Funesto último número


Ah velho palhaço,
A pantomima acabou!
Hoje não tem espetáculo!
Hoje não tem marmelada!
Hoje não tem palhaçada!

- Não senhor!!! -

O circo se foi.
E eu, sinistro palhaço,
De piadas repetidas e saturadas,
Já sem nenhuma graça,
Logo que sair desta jaula
Atearei fogo ao circo.
E ninguém mais
Rirá de mim!

Últimos passos


Vinha da rua empurrado pelo sol,
sacudindo das roupas
os resíduos do seu prazer...

e pensando poemas, como:

"Profanarei a tua boca
Com o meu beijo
Que ainda traz
No paladar amargo
O dissabor do último vômito."

E mais:

"Prostitutas ou só mais uma garota,
Naquele momento de insônia,
Depois de mais uma jornada escrota
E outra noite na babilônia."

Ainda:

"Hoje, causa-me ânsia de vômito
Beber na toxidade voluptuosa
Deste tão ébrio amor."

Foi morto enquanto voltava para casa,
com alguns trocados no bolso
e duas ou três versões
de uma mesma história mentirosa.


Tormenta primaveril


É o coração
triste árvore do amor
sem galhos e sem frutos...
as folhas que secam e caem
são o estado da alma.

Este meu coração
faz a chuva da dor...
e as lágrimas
que regam este jardim
transbordam em mim.

O sol
que daria vida não mais brilhou,
deixou tudo ser noite...
os sonhos que se seguiram
perderam-se na brisa da ilusão.

Tirania das máquinas




A ganância é a alma
do nosso negócio.
A nascente da nossa inocência
foi desviada para um rio
represado no passado,
e secou.
Ah! eu me preocupo
com esses moços
que herdarão a guerra,
pois os mestres
da realidade virtual
não sabem viver,
não sabem respirar,
não sabem pensar,
não podem lutar.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Flor dos anos



Vontade de subir no topo do mundo e gritar:
Como me pesa o tempo!
Estava doido de tesão
Um dia eterno desses lá em casa.
Um belo luar nas grades da janela.
Cultivar o espinho e abandonar a rosa;
Só eu sei como fico por dentro:
Presos pelo preconceito de uma época,
Amarrados à solidão do lugar.

Alice parou em frente ao espelho
Silenciosa, prestes a saltar
Para o mundo das maravilhas.
Tinha as coxas torneadas
Como uma brasilíndia afro-tupi,
E brancas, como uma bacante
Europeia do século dezenove...
Tinha tatuado no coração
Um nome que traduzia o amor
Mas, como um brinquedo desejado
Que saiu de moda, perdeu o encanto.
Vencidos pelo preconceito de uma época,
Separados pela solidão do lugar.

Cansaço


Já não sinto em mim a verve
Dos que trilham a vastidão infinda.
Eu andei traçando planos
E isto não está me deixando partir.
Talvez, uma pequena caminhada pelo bosque
Acalme o meu coração,
Ou quem sabe, se eu fosse
A uma pequena distância, o enganaria,
Neste momento em que ele
Se encontra tão confuso:
- "Será que não faço parte de nenhum lugar
Onde as pessoas me recebam
Como se me quisessem por perto?
Que sintam a minha falta
Nas inúmeras vezes que parto?
E não que me esperem,
Mas que, ao menos, notem o meu regresso? " -

Balada de uma saudade


Já havia sentido a perda
A algum tempo
Mas olvidei, lutei ainda.
Agora, todos os avisos se cumpriram,
Os caminhos se separaram.
E a paz veio dizer
Que é melhor sentir saudade
Do que ficar perto do que é solidão.

Não só por que ela quis assim.
Eu também não voltaria atrás.
Agora, cada um que sangre por si.
O adeus teve a naturalidade
Do que precisa ser vivido.
E o fim veio dizer
Que é melhor sentir saudade
Do que volver ao que já se foi.

Antes, tudo se resumia a um simples 'sim'.
Já, todas as alternativas deram em nada
E cada um que lute por si.
Acho que vou experimentar
Um longo período de paz!
E o silêncio veio dizer
Que é melhor sentir saudade
Do que lembrar o que se esquece.


Átomos mortos


Metade de mim
foi arrancada abruptamente
e não me sinto vazio.
Na verdade,
me sinto inteiro:
os seres que me compõem
me completaram:

Átomos vivos!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Culto


Dize-me tu: Quem és,
Que força é esta
Que atrai-me a ti,
E de onde vem este fogo
Que faz-me acender, arder
À tua simples aparição?

Mandei-te a notícia de um beijo
E quando fui entregá-lo
Já não estavas lá.
Estrangulou meu sorriso,
Após, um sentimento em nós.

Por tua causa,
E só por existires,
Há todo dia
Uma festa em tua homenagem
No meu coração.

Resignação


Morre, bela mortal,
Que a mortandade no teu corpo
Não morre!
Está frio perto de você,
Uma luz gélida e fraca,
Uma paz horrível.
Reserve uma hora para mim amanhã,
Pois estou ensaiando orações...
Eu troco o luto de quando em quando
Para confundir os que pensam
Que sou eu quem está sepultado.
Nada aqui tem sido fácil...
E toda vez que sinto vontade de viver
volvo a ti, trazendo flores.



Heróis dos nossos dias



Estar apenas vivo
É admitir a escravidão.
Eu não me escravizo,
Tenho as rédeas da ilusão.

Passados os dias, um sinal,
Vejo uma coisa maior:
Inventar o bem, recriar o mal
Sem saber o que é pior.

A arma tira do homem
Tudo que ele pode ter
- Alma, sensatez e coragem -
Suas únicas formas de poder.

E toda essa colossal galhardia
É quando o medo lhe dói,
Camuflado inconscientemente na covardia,
Não querendo mais ser super-herói.