Pierrot

Pierrot
la tristesse

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

No país da noite ilusória


Sim. Eu era rei.
De um país perdido da realidade,
Ocupante de um trono preterido,
Portador de uma coroa pesadíssima
E de um cetro sem poder,
Na corte onde o bobo
Era eu mesmo.
Meu exército de trôpegos, alucinados
Apontavam as armas contra eles próprios,
E caíam-lhes das mãos vacilantes,
Deixando nossas fronteiras desguarnecidas
Enquanto dançávamos em volta de fogueiras,
Gaguejando cantigas de um sonho falaz:
Súditos infiéis e conspiradores, arrogantes e irreais.
Nos intervalos das festividades,
Dava meu reino por um copo de água fresca
Sem que ninguém se interessasse...
Um dia, num lampejo de lucidez,
Deprimido e nauseado,
Decretei-me abstêmio
E, sem deixar linhagem, abdiquei.


Chuva de domingo


Penso no amor
Como numa chuva gelada e fraca
Caindo como canção na alma
Sem desespero e sem calma
Usarei a escuridão e o frio
Para ouvir esta chuva de estio
Como uma canção perdida
No tempo e na vida.
Assim foi o amor: confuso
Enquanto chovia lá fora
Eu cá contava as horas
E morria, recluso.


Moderna fé cega


Estamos tentando operar
Milagres pelo santo morto
Enquanto há um cristo
Crucificado em cada horto.

Estamos esperando os beija-flores
Pousarem nas carnificinas
Enquanto há um cristo
Crucificado em cada esquina.

Reze para o dia acabar
Sem aniquilar a nossa raça
Enquanto há um cristo
Crucificado em cada praça.

A poesia foi vendida
Por um poeta já sem fala
Enquanto há um cristo
Crucificado em cada sala.

Traga uma verdade qualquer
Que uma luz nos mostre
Enquanto há um cristo
Crucificado em cada poste.

Enquanto há um cristo
Crucificado em cada lugar
Enquanto houver um...
Que cristo?! Em que lugar?!


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Eu disse a ela enquanto dançávamos uma destas valsas de nome comprido


Duas palavras:
volte logo
eu estou
esperando ainda.

Sem palavras:
não sei
quanto tempo
suporto ainda.

Meias-palavras:
talvez eu...
talvez você...
estou meio...
confuso ainda...

Outras palavras:
como pôde se perder de mim,
assim, aparentando calma,
enquanto fico me consumindo
de ciúmes e solidão?

Horizonte sem promessas



Armas de um sonho
Num guerrear monstruoso
O amor e a mentira e a insensatez
Filhos de um deus medonho:
Estes têm fé falsa - este, duvidoso!
Nos campos onde combatemos
Somos só `spectros
Perdidos de nós, armas inúteis
Mortos sim, e perecemos
Ainda de pé, decrépitos.
Estava tudo acabado
Estava tudo findo
E fui achado num canto das ruínas
Já velho e cansado
Débil, e dormindo.






Quando Ela Chorou


Dizem que neste dia ela chorou.

...Chegou como se não quisesse
Falar sobre certo assunto...
Me olhou firme, não disse palavra.
Eu parado. Abriu minha guarda:
Me beijou. A princípio, com força.
Depois, devagar... bem devagar... parou:
Olhar calado e formidável: intrigante.
Se aninhou nos meus braços,
Olhos distantes, pulsação acalmando: me acalmou.
Quase dormimos.

No dia seguinte, ela era ela novamente:
Intranstornável!
Aquela foi a única vez que a vi diferente:
Disseram-me que naquele dia
Ela havia caído
E, após ter se levantado, chorou.


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

ALMA


Não estou voltando
Eu não tenho lar
Eu não tenho ninguém
Sou árvore
Sou folhas ao vento
Cada folha que voa
E vai
Ser cada cidadão
Na imensidão do mundo.
Não espere por mim
Pois o mundo dá voltas
Tudo muda
E eu dou voltas em tudo.
No entanto, cultive minhas raízes
- Razão das longas jornadas -
Posto que um dia posso regressar;
Só não fique esperando:

VIVA!

Tudo passou


Acabou!
E eu nem percebi.
Certo dia,
Flagrei-me
Fazendo enorme esforço
Para lembrar,
E nada.
A alguns anos
A encontrei:
Meio gorda...
De óculos...
Cabelos cortados...

Nova cronologia


O passado e o presente
Não fazem o menor sentido.
O futuro é daqui a um segundo:

...Já passou!...

Agora, que assenhorei-me do tempo,
Admito que cometi erros,
Praguejei contra todos
E contra mim,
Sem sequer
Fazer uma auto-crítica honesta.

Palidez


Tudo era sem cor àquele tempo

Quando a vi e ela me abriu seus olhos

Que têm mais azul

Do que o céu de Galileu

E mais poesia

Do que o céu de Ícaro.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Sem caráter


E o que somos nós,
Se também estamos presos,
Usamos as drogas que eles vendem,
Somos dignos do nosso próprio desprezo?

Esta noite não dormirei.
Escreverei as minhas mágoas:
Você não respeita sentimentos;
Também, são falsas estas lágrimas...

São drogas - têm poder de destruir.
Posso ser alguém como você:
As mentiras que dizem são verdades,
Mas ninguém quererá saber.

Teu corpo é ilusão de ótica.
Você não tem espírito,
Não tem alma, não sabe sentir.
Teu amor é só por um momento crítico.

E o que nos torna iguais
É esta tão gratuita escravidão:
Teu corpo branco, minha alma negra
Agonizando na mesma escuridão.

Sombras


Quando você caminha lado a lado com o medo,
Temendo a sombra que o seu próprio corpo faz,
Procurando os caminhos na escuridão
Para fugir do demônio que você mesmo suscitou.

Quando o tempo está frio
E a névoa cai duramente
E o final da rua está bastante turvo
E não há nenhuma luz dentro de você...

Não é necessário correr,
Se você não consegue abrir os olhos.
Tente se reencontrar intimamente
E talvez este pesadelo acabe.

Agora, você para no meio da escuridão
E, ainda assim, a sua sombra prevalece.
Você não percebe que ela é o reflexo
Da maldade que vinha praticando...

E lança-se ao chão
Numa oração desesperada e torta;
Com o coração em chamas
Tenta restabelecer contato consigo mesmo.

Foi assim que você nasceu - todo trevas!
Mas há um sol no seu caminho.
Você mesmo é a sombra a te perseguir.
Encontre uma claridade para ambos!


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O Império dos Condenados



PÁ! PÁ! PÁ!
Morre cidadão, morre!

E a gente nas calçadas
Assiste à cena, indiferente.

Senhores da omissão
Senhores da covardia
POVO!
Senhores das suas calçadas
Até que lhes sejam confiscadas.
Senhores, acordem!

O país está no cadafalso
E a culpa, desta vez, será nossa,
Acordem!

PÁ! PÁ! PÁ!
Morre em paz, cidadão!
Mas não há garantias de descanso.
Apenas morra!
Deus está dormindo
E você vai morrer!

E a gente nas calçadas
Recolheu as suas cadeirinhas
E pouco se importa
Com o cortejo do teu fuzilamento.
São nove horas da noite,
Acabaram-se os telejornais.
É hora da novela.

Morre em paz, cidadão!

No Brazil é assim:
Ou é no horário nobre,
Ou morra!
Este é o teu Império.
Tu nunca foste César
E agora, está morto.

Pobre cidadão!

Distâncias


Isto não tem fundamento!
Você reclama solidão por um lado
E eu, fico suspirando amores,
Ao seu lado.
Eu não sou inocente ou cínico,
Ainda assim, preciso me defender,
Já que você
Parece não saber perdoar.
E continuamos assim:
Eu suspirando amores
E você, ao meu lado,
E deixamos um mundo indiferente e frio
se entrepôr a nós;
Isto não tem razão de ser!

Desespero e Blues Versão Dois


Este rosto no espelho
Sem verdade nem cor
A tua embriaguez é morte
Mas não abrevia a tua dor.

Tu foges!
Mas, na casa vazia,
De quem tu foges?

Há uma prisão
Em cada rua
Com muros que vão
Dar na lua.

Outro gole
Não afastará o frio
Pular desta ponte
Vai dar no mesmo rio.

Agora, pegue o baixo
E toque um blues pra valer,
Volte a viver:

Pular deste prédio
Vai dar no mesmo tédio.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Enquanto caminhava...


Se falar do amor
Trouxesse alegrias compatíveis
Rasgaria este horror
De 'Livro de poesias terríveis'.

Se desenhar uma flor
Trouxesse odores respiráveis
Desfiguraria este rosto sem cor
De sorrisos fingidos e afáveis.

Se trilhar este caminho
Fosse um caminhar confortável
Arrancaria cada espinho
Deste pé pesado, insuportável.

Se todas estas teorias
Revelassem alguma verdade
Trocaria meu coração - trocaria
Por uma alma sem maldade.

Mas, tudo dito sobre o amor
Não vale uma flor
E a maciez deste caminho
É, tão-somente, um espinho.

Vendendo a Alma


Homens de ferro
Tentando entender
O estado perfeito das coisas;
Inertes e imunes
como as pedras
em seus corações.
Seus cérebros de aço,
Frios e incapazes de compreender
As canções que falam de paz:
Gente hipócrita
Que se perdeu da realidade
Não sabendo sonhar,
Envenenados na sua ira,
Quanta peçonha:
Sua artes mercenárias
Nas cenas destes filmes terroristas!

mitologia leiga


Posso ser deus amanhã.
Mas quebrei todos os ídolos,
Humilhei os seus mitos
E eles me amaldiçoaram.

Posso ser puro amanhã.
Pena que nasci hoje,
Sei tudo que aconteceu ontem
E o futuro me teme.

Deram-me a vida
Como um dom gratuíto.
Eu queria um refri ruim
E poder bebê-lo como um tolo.

Sou um poeta bobo.
Bebo minha droga poética.
Ouvi negros e vagais num gueto
E enojei-me, como faria um Lord.

Não odeio os seres humanos.
Mas os seus deuses e sua hipocrisia
Declaram-me guerra todos os dias;
Posso ser paz amanhã.



República de papagaios


As palavras
Já foram todas ditas.
Não sejamos meros papagaios.
Revelar uma verdade
Encobrindo mil mentiras:
Há algo errado conosco.
Ah se eu fosse
O estúpido Einstein!
E que falta me faz
Uma bomba!

O Sete de Setembro


Não somos
Um país qualquer!
Nossos filhos nascem dizendo:

- Sim, aceito!

Hoje, diria D. Pedro I:

- Avante,
Vamos nos americanizar!
Vamos nos escravizar!

E responderíamos:

- Sim, aceitamos!

Regresso ao Alegre Ninho


Poema inanimativo
Que chama à discussão,
Mas nada discute.
Não é como desejar chuva ou sol,
Passar a mão sobre a cabeça
De uma criança que errou;
Não!
É acertar desde o princípio:
Amar a natureza
é compreender cada estação,
Ter o homem e ser o fruto,
Ver no correr dos rios
Curso para o paraíso;
Abraçar o vento,
Sussurrar canções às pedras
E às flores,
Escrever às turbas tempestades
Um poema inanimativo
Que chama à discussão,
Mas não discute;
Apenas senta-se à sombra...

E respira...

legião de Insones


A insônia dos quartos
Sabe as verdades lá fora.
Aos que dormem
Basta apenas um sonho.

A insônia dos quartos
Viu os homens perambulando,
Cegos pelos clarões
Que as suas próprias bombas provocam.

A insônia dos quartos
Sabe onde acabarão os caminhos,
Sabe onde os homens cairão,
Viu quando erraram cada passo...

E amanhece mais consciente
De que pode não haver amanhã
Para os que estão dormindo
Com medo de acordar.

Dias de uma Vida



M O


N O

T O



N I


A!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Em suas mãos


Eu sou um
Amantíssimo homem.
Você é fria.
O teu coração não reconhece
O meu amor.
O que há conosco?
Estou tentando chegar até você:
Me ajoelho, Me faço criança
E você se defende, como uma pedra.
O que posso fazer?
Tenho uma marreta em minhas mãos
Mas, temo não ser
Tão delicado.

À sombra do repúdio


O sol transformou-se
Num astro frio e rancoroso,
Negando sua luz
A tudo que implorava-lhe vida.
É melhor assim:
Das trevas vê-se melhor
E pode-se marcar os rostos
Daqueles que comunam com a claridade!
Logo que a escuridão se fez
Via-se, nitidamente, os generais
Em suas montarias motorizadas
Labutando fervorosamente nas carnificinas...
Era o sumo da tragédia humana!
Eu, após atirar todas as pedras
E exaurir todas as minhas energias,
Estou recolhido às sombras,
Com o peito encolhido,
Esperando pelo fim
E me perguntando quando será!


Clube dos Vagabundos


Eu fui dormir na praça.
Sentia-me dono de mim demais
Para pedir abrigo
E fui dormir na praça.

Ouvindo um rock da Legião,
Um copo, uma caneta na mão,
Velando pelas raças.
Eu fui dormir com as traças.

Amanhecendo com a lua.
À noite, ao fim da noite
Todos sentem-se donos da rua.

Por que ninguém mais
Veio dizer-se dono?...
Roubar-me todo sono?
Não deixar-me dormir tão insano?

Maldito o deus
Que deixou-me adormecer,
Perder
O que nunca foi meu.
Mas esta praça é minha,
Os sonhos são todos meus
E tu,
És apenas deus!

Animalidade


Os primeiros beijos
Foram dados sem paixão,
Apenas por instinto,
Como fazem os outros animais.

Os demais,
Foram sempre nas pessoas erradas
E tão embriagados
Que eu nem senti.

Assim, fiz amor
Para ser sentido
E nem isto senti.

Hoje, sinto que caminhei
Com passos trôpegos
E em direção ao vazio.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sempre em frente


Tente não me imitar
Tente não me alcançar
Fale do que você conhece
Tente sonhar
Não pare de lutar
Planeje tudo e comece.

Tente mudar as coisas
Troque umas pelas outras
Se o futuro chegar
E você sentir medo
Mesmo não sendo cedo
Tente não me imitar.

Tente ser outra pessoa
E você se perderá
Tente ser você mesmo
Ainda que tenha medo.

Tente não chorar
Tente não mentir
Tente não fazer
(o que eu faria)
Pra você estar aqui.


Espíritos armados


Aquele que ordenou-me fazer a guerra
Em nome da paz e da justiça,
Banhado em sangue, feriu-se gravemente
E impôs bruscos freios à minha ira!
Também o meu coração
- Honesto e singular -
Invultado de dor e sangue,
Não queria mais lutar.
Também a minha alma
- Indômita e de aço -
Transbordou medo e lágrimas,
Sem conseguir esquecer
Uma eternidade de guerras...
Por não poder explicar
O que ninguém quer entender.


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O tormento de Joana D`arc.

Aflição




Apague as luzes,
Nós somos os filhos da escuridão!
As sombras e as maldades da noite
São nossas únicas aliadas...
Já não temos coração!
Vendemos nossas almas
Por um preço irrisório,
Por um sonho sem cor...
E fugimos do pesadelo de entregá-las agora.
Nossas vidas descansam no abismo
Da falta de fé,
Onde sepultamos nossas esperanças...
Deus nos odeia:
Tentamos matar seu Primogênito
Numa trágica noite
Em que o Arcanjo Miguel
Nos baniu da face da terra;
Nós somos os infiéis!
No amor, somos os canalhas
E, para a sorte dos corações,
Aos quais atormentamos
Com nossas paixões mundanas,
Somos sempre vencidos.
Agora, que as trevas se desfazem,
Preciso voltar ao meu exílio sepulcral.
Talvez, algum dia,
Eu aprenda a te amar
E volte a viver,
Se você me perdoar.

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Este poema narra a estória de um jovem que, para recuperar a namorada, vendeu a alma a satã e, como parte do pacto, voltou no tempo com outros condenados, para assassinar certa criança; vencidos neste intento, foram aprisionados numa dimensão entre a terra e o inferno, de onde fogem, a lapsos de tempo, para pedir redenção àqueles a quem magoaram.