Pierrot

Pierrot
la tristesse

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

dEsconSTruÇãO


Fui educado com
Os ensinamentos dos mortos.
Ouvia atentamente
Com se fosse gótico.
Mas li "A Construção"
Como se fosse lógico.
Isto ficou em mim
De algum modo sólido.

Não beijou a mulher
Porque não tinha.
Nem cada filho seu
Pois também não os tinha.
Subiu na construção
Como estivesse sóbrio.
Ergueu mágicas paredes
No patamar do óbvio.
Tijolo com tijolo
Com um encanto plástico.
Sentou pra descansar
Com um pensamento drástico.
Comeu feijão com arroz
Como roesse um osso
Que lhe ficou entalado
No meio do pescoço.
Não era príncipe, ou bêbado
Nem máquina, nem pássaro, ou sábado.
Estava acima do público.
Olhou para as paredes
Cada centímetro cúbico,
Derrubando tudo
Na cabeça do povo;
Pegou de outro livro
E começou de novo.

o pródigo o próximo
o último o único
o filho o próprio
o feito perfeito
o livro vivo
o trânsito o trâmite

TUDO RUIU!

sábado, 20 de agosto de 2011

Gotique


O amor tal qual o conhecemos
É um deserto gélido:
O vento surrando mudo,
Um silêncio cinza e duro,
Árvores mortas, sem flores nem frutos,
Folhas desgarradas sem destino;
As roupas pesam como uma cruz, uma prisão,
O estômago reclama fome,
Os pés não sentem o chão,
Os olhos não veem o céu,
Num cenário nevoento
Que mais lembra o palco de uma guerra
De horripilante mortandade de almas
E sepulcro definitivo dos sonhos:
Tudo é morte!
Mas basta pensar em você,
Quando você sorri,
A possibilidade de você dizer 'sim'
E o meu coração aquece,
Faz sol dentro de mim,
A névoa se esvai,
A neve derrete,
Tudo ganha cor, tudo é vida,
O meu sorriso volta,
O paraíso se refaz.

O fim e o começo


Solidão
O fim recusou-me o convite.

Solidão
Ouço o eco dos meus passos.

Solidão
Vejo um vazio espaço
Onde estão os outros.

Solidão
A garrafa na mesa
Um único copo.

Solidão
O silêncio do meu grito.

Escuridão
A sombra não me acompanha
Tão solitário eu ando
O fim não enviou-me convite
- Esta solidão! -
E é só o começo.


Iconoclasta


Não tenho algo a dizer!
Longe de mim com estas mídias todas,
Este microfone surdo,
Aquele holofote cegador
E a moça, bonita e vazia,
Instando-me sobre coisas que eu não sei;
Querendo que eu testemunhe
O que não vi;
Que eu preveja um futuro caótico que,
Ou faça-me santo
Ou evoque sobre mim
Toda a crueldade
Que pretendo lançar contra os outros!
Longe de mim este Panteão,
Esta Babilônia;
Ao inferno com o aplauso técnico,
A loucura dos autógrafo,
Longe de mim!
Deixem-me ser poeta... calado.

domingo, 14 de agosto de 2011

Aos que não nos viram passar


Enquanto teimamos contra a morte,
Seguimos ansiando pela vida,
Fomentando ideologias adormecidas
Que talvez nos tornem mais fortes.

O resto certamente virá depois,
Mesmo tarde, ainda não sendo noite,
Estaremos a suportar os açoites
Deste espírito que ora é um, três, dois.

Humanidade - raça de ajuntadores de tesouros -
Ao dia, faz seus funerais festivos;
À noite, encaminha-se, como um rebanho vivo,
Voluntariamente para os matadouros.

Embriagado por uma sensação de liberdade
Sulca o mundo andando sempre sozinho;
E a cada passo dado por qualquer caminho
Seus pés vão matando a uberdade.

Bate das botas a poeira das estradas,
Que de toque e cheiro reconhecem a terra;
E dos sem-destino, até quem mais erra,
Despreza o iminente risco de encontrar o nada.

A humanidade - seus tesouros, caminhos e ideologias -
Não percebe que da Existência só ela finda.
Tudo passou! e ficamos perdidos, esperando ainda,
O homem que virá, trazendo uma nova cronologia.



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Solidão nos grandes centros


Eu queria uma pizza.
Mas estou tão farto,
Quase enjoado.
Talvez emburrecer,
Desde que suportasse
A televisão.
Na verdade
Eu queria voar
E tenho a barriga cheia.
Eu quero qualquer coisa
Que não precise pedir,
Que ninguém me negue
Enquanto eu quiser.
Eu queria...
Mas já não quero...
E seria só depois...
Amanhã, quem sabe!?

poeira do tempo




Ainda passa pelo mesmo caminho
E não encontra ninguém.
Há um tempo para mudar itinerários,
Onde os bons costumam se esconder
Em horas difíceis,
Como a verdade se refugia
Quando o medo sai às ruas
Em dias de chuva ácida,
Quando só resta o que se destruiu.
A verdade na estrada
Deste homem sem passado
É que ele não viveu,
Só esteve de pé,
Como um monumento ao vento,
E o vento consome
O que não se move.

Receio


Eu sei que está tudo bem!
Só preciso organizar os pensamentos.
Nada é tão complicado como vejo.
No silêncio das canções
Que canto em silêncio
Vejo a solidão dos astros
Como um castigo sagrado, sublime.
O sentimento mais forte entre nós
Foi você me odiar por algum tempo,
Mas já está tudo bem!
Apenas os nossos sonhos viraram pesadelos...
...Ainda estamos aqui, ainda somos nós,
E vivos,
Até prova em contrário!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Ego sum qui sum



Do saber humano, de todo conhecimento

Só preciso que me ensinem como criam-se as teorias;

A prática só eu experimento.



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

No silêncio escuro


A sua imagem desapareceu

Foi o sol que dissipou
A insanidade da espera
A abrupta perda
Dois traumas para superar

Foi o tempo que se equivocou
O espaço se abstraiu
Nada enfim se encaixou
As palavras não vieram

Hoje no silêncio escuro
Penso saber dizê-las
E quando acendo a luz
Tudo se desfaz
A vontade se esquece

Foi a noite que durou um dia

Fome de mundos


Eu só sei quem sou
Quando choro em silêncio
Ou me escondo do mundo.
Os outros só choram aos soluços.
E sentir pena deles
Faz com que eu me perca.
Ela foi alguém que ignorou as minhas mentiras,
Desejou que eu fosse quem eu quisesse,
E eu desejei morrer.
Sempre houve uma verdade no meu sorriso.
Eu disse a ela dos meus medos,
De como os adultos se esquecem...
Ela gostava do que eu era
E eu era uma ânsia incontida!
Quando pensei haver mudado,
Ela se foi
E eu nunca mais fui eu mesmo
E nada sou do que não fui;
Só esta ânsia!

Onde estão os corações dos tolos


Eu disse que era só uma festa.
Dias atrás, era a casa cheia,
Uma felicidade arrogante...
Ontem, já o abismo sem despedidas.
Sem despedidas,
Eu saí primeiro... e já não havia ninguém:
Um vazio de mim,
Um vazio do que eu fui.
Voltei tempos depois
Para me convidar a sair
A ver o mundo que era meu,
Ainda vivo, ainda mundo, ainda eu:
Um dever de restaurar mundos,
Coisas, eus
Destruídos por um não arriscar
O que nem tínhamos,
Universos de perspectivas longínquas,
Sonhadas apenas.
Velas e incensos, orações fingidas,
Acusações contra o que cremos não-ser,
Quando deveríamos salvar a nós mesmos.

MTV


Dos poetas-mortos
Quando deixavam crescer o cabelo
Quando cantavam suas canções de amor
Quando andavam pelas ruas
Loucos
Nos anos oitenta
Eles tinham bandas, gangues
Repudiavam tudo
E rompiam paradigmas
Loucos
Como dissessem aos poetas vivos:

- Vivam como quiserem!
Mas não morram como nós,
Ainda vivos, ainda de pé,
Dentro da televisão.

...E devolvam o meu copo!


Dinheiro:
eles enxergam o que veem.
eu vejo apenas vultos de essências.
bicho de finas e delicadas mãos,
fera rebenta de um parto defeituoso,
monstro que lê:
duas monstruosidades numa linha reta
direcionadas ao contrassenso.

Luzes:
me cegam.

Paz:
eu, bárbaro.

Saber:
quero meu dinheiro agora.
uma foto, meu cabelo...
o céu não pode valer mais
do que o que eu tenho.

Na outra mão, os versos.


Eu sinto pena do que dura eternamente!
A lua era tão bonita
A um segundo atrás.
Quem é ela, agora?
A sombra de um instante passado?
E que eu sou?
O momento exato?
Um cansaço de perguntar porquê,
Como se respostas bastassem?

Sentindo frio


Qual é o seu destino?
Será preciso que eu te diga sempre?
Já é noite.
Vem, acorda os teus fantasmas,
Mostre-me a eles.
Veja como as coisas não são:
Eu sei quem sou
E posso te contar histórias
De como você não é.
Vai, conheça o teu medo:
Você foge de si mesmo
E já é dia.

Desespero sem causa


Estive dividido em quatro partes.
Mas, a algum tempo,
O corpo perdeu poder de voto.
Agora é o coração
Agindo emocionalmente,
A cabeça
Tentando usar a razão
E a alma
Lutando para unificar
Estas duas potências
Em favor de mim:
Um desespero sem causa
(estou exasperando)
Todas as mãos à cabeça
Sem ter mais como me segurar!


O impossível é o óbvio


É necessário, antes de tudo, suscitar a dúvida.
Eu, quando tive certezas,
Tornei-me arrogante e desobediente
E, aprendi da maneira mais dura
Que o impossível acontece, pelo menos,
Três vezes ao dia
E o resto, certamente, pode ser feito.
Fui deixando o mundo para trás;
Estou dando meus próximos passos;
Amanhã, outro lugar, outro sonho;
Eu realmente me perdi?
Ah, que bom é ter certeza... e duvidar!
Para encontrar a mim
Tive que suportar muitas verdades...
E nenhuma dor é tão lancinante!
E, diante de todos os temores
Suscitados pela solidão e pela dúvida,
Descobri que o impossível
Pode se tornar cotidiano.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

À cadela Billie Holiday


Ah, Billie,
Estou tão cansado
De fazer nada!

Ah, Billie,
Você já esteve cansada
De fazer nada?

Billie Billie,
Reclame de alguma coisa,
Qualquer coisa,
Queixe-se, lamente, pragueje...

Mas não renda-se, Billie!