Pierrot

Pierrot
la tristesse

segunda-feira, 28 de março de 2011

TALVEZ...

por MARCOS ALVES BRASILEIRO (1964 - 2008)

Afinal, o que é o nada?
Será a tarde parada?
Será um feixe de luz
Ou vento que nos conduz?

Afinal, o que é o nada?
Será dor da escuridão?
Será nossa própria vida
Ou somente a imensidão?

Afinal, o que é o nada?
Será que do menos existe
Ou será a natureza
Que da poesia fugiste?

Afinal, o que é o nada?
Será o gêmeo de tudo?
Será a ilusão do céu
Que sempre encobriu o mundo?

segunda-feira, 21 de março de 2011

Diáspora

por Cristiane Gandolfi

O espelho partiu,
A vida que pensara ser minha,
Não era.
Fora tua,
Mas tu não a querias.
Versos de um século passado,
Amor que não podia ser.
Amor frágil,
Amor de perdição,
Amor de cantos, cantigas,
Que silenciavam vozes,
Afastavam desejos,
Maltratavam as rimas, prosas, ritmos da poesia.
Poetas que se foram,
Tiros no pé,
Inspiração do claustro
Se eu morresse amanhã
Revelam
As espumas que flutuam na superfície azul
De outros céus,
De outros ares,
Outros viveres,
Para além
Do concreto dessa despedida.

De encontro com o tempo presente
Esses versos aceitam a morte
De um poeta.
Ainda ingênuo,
Leitor de Rilke,
Pronto aos primeiros passos,
Eufórico,
Vibrante com a vida.
Contudo,
A palavra é morta
Subjugada pelo desejo de romper,
Já não vê carinho,
Esperança,
Vivacidade
Na poética do amar.

O tempo dita:
Rompa consigo, rompa contigo,
Recolha os cacos do imaginário,
Caminhe,
DE CI DA
O tempo presente chama,
Caminha,
SU BI DA
DE SE JA
Impetuosamente,
Reencontra-te contigo.
Abandona o espelho partido,
Fruto de um querer
Dissipado em meu verbo
Afirmado em minha entranha
Suprimido de mim.

Desejo velado entre
Ratos, caixões, morte.
Futuro não vingado.
Palavras não ditas,
Olhos vedados,
Ainda cegos para enxergar
A arte de amar.

Despeço-me agora de meus versos.
Não tenho mais o que dizer.
A hora é de calar.
O coração fraco
Pede
Voltar a viver.
Busca outros caminhos
Caminha,
Por que a morte está aqui.
Vai-te encontro à vida.
Despeças-te de mim.

Erro,
Limbo,
Amores não vividos,
Malfeitos
Entre flores perfeitas.

Despeço-me do quase nada de ti.
De poucas palavras,
Perdidas no vão do açoite
Da tua língua.
Da rigidez da fronte
Silenciosamente
Cortada
Lâmina aguda
Pronta
A matar-me.

Despeço-me de mim.
Do pouco de delicadeza
Que houve
Nessa desventura,
Nesse alarde,
Nessa indiferença:
Fala da desumanidade.

Cantos humanos,
Anacronicamente
Humanos,
Desistem,
Não resistem mais.
Agora,
O que fica,
O que se mantém
É a diacronia do tempo vivido.
Tempo do outro,
Do quase nada vivo,
Do impossível de ser
Uno.
Inteiro,
Reveladoramente
Não revela a imagem-invertida
Presa no espelho
Do escuro da noite.

Faltam raios a projetar imagens,
Simetrias, assimetrias,
Descontinuidades de sua face.
Não mais,
O espelho partiu.

Eternamente o breu da noite
Impediu o retornar das estrelas,
Suspensas na superfície da lâmina de cristal
Amolada nas venturas e desventuras
Desse canto não mais ouvido.

Tempo de olhar para frente,
de se lançar,
Se soltar
Em direção ao nada.
Escuro, firme, suspenso,
Fixo,
Tempo de enxergar
Para além dos espelhos
Internamente reclusos
Na diáspora
Sufocada pela memória.
O poeta segue,
O poeta parte,
Perde e se perde,
Desloca-se
Em direção a outras paragens.
Internamente
Vai
Volta para si.


terça-feira, 1 de março de 2011

Fazer Poesia

por CRISTIANE GANDOLFI, POETISA.

O que é poesia,
De que matéria
Se consubstancia?
Do esforço,
Luta com a palavra,
Insaciavelmente,
Incansavelmente,
A palavra fica,
Insiste.
Dorme,
Acorda comigo,
Feito pedra,
Lapida,
Chama para a escrita.

O que é preciso
Para fazer poesia?
Rimas, métricas
Ou, basta apenas,
Utopia?

O poeta olha para trás
E de seu fazer,
Em mescla a tantos humanos
Em luta com o seu,
Com o nosso desumano,
Pede por ti,
Poesia: sublima a vida.

Entre os fazeres do poeta fingidor,
Da poeta ou poetisa,
Que não é nem alegre nem triste,
Que canta, encanta.
Motiva.
Do poeta peregrino,
Que insiste perseguir suas bolhas de sabão.
Do poeta
Que morre e clama em seus versos
Amor
Para a ressurreição,
Brotam esses versos.

Escrita a ser lapidada na solidão
Destes tempos pasmaceiros,
Tempos de pouca luta interna,
De pouca poesia da pedra,
Tempos plastificados,
Perdidos no breu das vitrines.
Tempos de estrada reta, vazia,
Sem faróis, sem vida,
Sem amor-perfeito ornando as avenidas,
Sem o martírio dos versos,
Da palavra,
Que sangra,
Toca dentro e pede
Por outro tempo humano.
O tempo dos poetas.