Pierrot

Pierrot
la tristesse

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Morte social


Esconda-se
Logo que o dia amanhecer.
Não porque
As verdades venham à tona,
Mas, porque na nossa situação,
Qualquer verdade ou mentira
Nos sepultará,
Revelará quem somos
E, desde os últimos acontecimentos,
Não temos do que nos orgulhar.
Mantenha todos os sentidos alertas:
Da última vez que fechamos os olhos
As coisas estiveram funestas...
Desde então, se adormecermos descuidosos
Poderemos não prevalecer.
As comemorações estão por toda parte.
Nós não conseguimos roubar os convites.
Nos resta apenas ficar em casa,
Rezando baixinho
Para que algo dê errado.
Não somos os jovens da praça,
Nossa alegria nos foi tirada
Quando ainda nos preparávamos
Para ser crianças
E, se viemos aqui
Sem forças para um revide,
Acho melhor não nos expormos...
Fique em casa esta noite
E, durante o dia
Finja alegria,
Misturando-se às pessoas comuns.

Feitiçaria


Ainda estou incrédulo!

...De repente,
Como num passe de mágica,
Estava no meio da floresta,
E as bruxas,
Postadas ao redor,
Temperavam seus caldeirões de encantos....
Então, começaram a dançar,
Girando em volta de mim
E entoando cantos estranhíssimos.
Foi quanto aquela figura surgiu.
Um beijo, um espaço no tempo:
Era o amor
Em sua essência mais perfeita.
Misteriosa:
Os olhos, o rosto,
Os cabelos, o corpo...
Ela não era você,
Mas o seu coração estava lá.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Engolindo a seco


Neste momento,
As palavras se derretem
Em minha boca
Com gosto amaríssimo
E como não consigo
Cuspi-las fora,
Descem pela minha garganta
Como pedras pontiagudas
Que, pouco a pouco,
Vão substituindo o meu coração...
E eu - que sempre fujo de tudo -
Desejaria sufocar
Este desejo de fuga.

Direção nova


Nossas almas mortas
Querem se libertar dos sonhos.
Eu, por exemplo,
Já não tenho licença
Para falar pelos outros...
Devo projetar
A minha própria fuga.
Uma vez que andei mentindo
Em relação a tudo,
Qualquer um, detentor de meia verdade,
Tentará ser senhor de mim
E, já que estou me escondendo de mim,
Não posso me esconder em mim.
As nossas almas mortas
Sonham queimar os livros,
Acordar e lutar;
De agora em diante,
Eu não respondo por ninguém!

Males conhecidos


Estamos, novamente,
Prestes a nos lançar
Do mesmo abismo,
Contando o que restou
Das nossas ricas vidas...
As palavras não têm mais crédito
E apenas uma verdade
Poderá nos levar aos céus;
Os meus anos se passaram:
É hora de sentir medo!
A culpa é minha
Por não conseguir dizer
Todas as palavras
Que você precisa ouvir.

- Eu te amo! -

Estas são as únicas palavras
Que não me traem,
E, neste momento de êxtase,
Esta é a chave
Que nos abrirá os céus.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Uma parte de mim


Se as minhas mentiras coubessem na mochila
Eu as levaria comigo...
Mas não é permitido.
Eu também gostaria de corrigi-las
Antes de ir embora,
E, chegando a outras paragens,
Poder contar estórias confortáveis
Que não enganem a quem
Anda rezando por uma ilusão.
Eu também devo ter rezado errado
Para que perdoassem os pecados
Contidos nas minhas palavras néscias.

Se as minhas mentiras coubessem em mim
Eu as teria guardado em meus sonhos...
Mas não é permitido.
Porque os sonhos sou eu mentindo para mim mesmo.
Em algum momento desta vida
Faltará espaço nos esconderijos da alma,
Então, não poderei fugir das verdades
E, como um covarde fratricida,
Trairei as minhas mentiras
Para permanecer protegido do que eu sou.

Posso estar mentindo
Ao confessar estes obscuros segredos...
Mas isto é permitido.

Uma parte de você


Todo mundo joga
E eu torcendo por você.
Você está no jogo
E eu torcendo contra os outros.

Nós, que tivemos
O mundo aos nossos pés,
Já não podemos
Nos postar de pé.
Acho que faltou fé,
Faltou ser o que se é.

Todo mundo joga
E eu torcendo por você.
Você está no jogo
E eu torcendo contra os outros.

Agora, o que me assusta
É a longanimidade nesta vida tão curta.
Enquanto você me empurra,
O abismo me puxa
E vou me perdendo a cada curva.

Todo mundo joga
E eu torcendo por você.
Você está no jogo
E eu torcendo contra os outros.

Isto ninguém perdoa.
Nós não tivemos escolha.
O livro da vida ecoa
Dizendo que o vento voa
Carregando nossos nomes
Noutra folha.

Todo mundo joga
E eu torcendo por você.
Você está no jogo
E eu torcendo contra todos.


Devoção


Quando os meus olhos vieram te ver
Houve uma festa em toda parte:
Anjos tocaram violinos, flautas, harpas...
E um gênio da escuridão
Ensaiou passos estranhíssimos
Que arrancaram risos
Dos guardiões da sanidade...

Quando os meus olhos vieram te ver
Apenas eu, misteriosa criatura,
Estava ausente, fora de mim,
Longe do meu próprio coração.
Então me convidaste à vida
E me encontrei no teu ser.

Quando os meus olhos vieram te ver
Nada havia.
De repente, havia o tudo.

Quando os meus olhos vieram te ver
Tudo que desdenhava a minha solidão
Ficou contrafeito, quando te vi.

Quando os meus olhos vieram te ver
Os caminhos erraram-se todos;
Eu atropelei a razão
E cheguei ao lugar que é meu.

Quando os meus olhos vieram te ver
Todos abraçaram-se, fizeram figa,
Ensaiaram cantigas... e ainda anseiam comigo
Que os teus olhos venham me ver.

Onde estão os teus olhos?
Quando os teus olhos vêm me ver?
Os meus olhos vieram te ver!

Quando os meus olhos vieram te ver
Eu vim junto
Porque sou eu que tenho pernas.

Quando os meus olhos vieram te ver
Eu vim com eles
Para que eles te vissem (te vejam).

Quando os meus olhos vieram te ver
Nasceram fogo, desejo, amor e paixão
Em doses diárias intermináveis.

Você é o anjo, a sanidade,
A vida, o lugar que é meu:

Por isso os meus olhos vieram te ver.
Por isso os meus olhos
Me guiaram até você.



Faroleiro


O mar saberá de suas águas,
De tudo que nele há,
De tudo que nele passa:
O mar é o único senhor do mar!
E revolto,
Há de cuspir tubarões às praias,
Há de afogar baleias
E levar peixes
A profundidades ou superficialidades
Nas quais não possam sobreviver.
Aos almirantes, piratas, capitães e marujos
Faz náufragos e os sepulta em si:
O mar é o único senhor do mar!
O magnetismo do mar
Traz para si as coisas do ar,
Alimenta tempestades,
Revolta as suas águas em tormentas
E, na calmaria,
Faz das vagas
Um breve feitiço de leva-e-traz,
Devolvendo à terra
Corpos e destroços
Daqueles que ousam tentar domá-lo!




Findinga


Enquanto Zezinho,
que jamais seria dono de uma porquinha preta,
estava tentando engatinhar,
os cachorrinhos brincavam de dar mordidinhas.
Então, Zezinho ficou de pé;
correu, criou alguns sonhos,
fez planos engenhosíssimos
enquanto os cachorrinhos brincavam de dar mordidinhas.
Zezinho cresceu, foi à escola, leu livros...
perdeu-se dos sonhos... perdeu-se também...
amou, bebeu, chorou...
morreu algumas vezes;
escreveu livros e amou-os,
e rasgou-os, e queimou-os;
tornou-se poeta, profeta, filósofo, ator e palhaço,
e quando a vida parecia perder o sentido,
Zezinho observava
os cachorrinhos brincando de dar mordidinhas.
O mundo ia girando, tudo transformava-se
de um modo ou de outro.
Alguns cachorrinhos cresceram
e tornaram-se feras grotescas,
assassinos vorazes
dos cachorrinhos que brincam de dar mordidinhas.
Zezinho, eterna criança,
e que jamais tivera uma porquinha preta,
ainda é amigo dos cachorrinhos que brincam de dar mordidinhas.




quinta-feira, 22 de julho de 2010

Oração aflita


I

Tão perto!...
Contando os passos para o fim.
Que não deveria ser assim,
Mas as tragédias da última noite trouxeram
As verdades pré-fabricadas que nos impuseram.

(coro)

Não estou pedindo socorro!
Pouco importa se vivo ou morro!

Tantas orações gastas!
Bastaria que enviassem-me um anjo.
Enviem-me um anjo...
E basta!

II

Aqui, todos são inimigos ou amigos.
Nenhum peito dará-te abrigo.
Pese as coisas que ainda são tuas
E reze, pois as verdades estão todas nuas.

(coro)...

III

As criaturas da noite também choram por amor
Ecoam estrondosos gritos de pavor
Reivindicando o que não podem ter:
Uma oração perdida, pelo que não pode ser.

(coro)

Não estou pedindo socorro!
Pouco importa se vivo ou morro!

Tantas orações gastas!
Bastaria que enviassem-me um anjo.
Enviem-me um anjo...
E basta!



Até os brutos...


A maior de todas as derrotas
É não ter alguém
Com quem
Dividir as revoltas;
Para compartilhar
Quedas e vitórias,
A quem contar
As histórias
De quando éramos perfeitos
E detalhar
Cada um dos feitos;
E quando cansarmos e cairmos,
Quando a luta estiver perdida,
Ter neste alguém uma guarida.



Amargura


Aqui, como tudo estiola,
Para este velho pássaro triste,
O único lugar seguro é a gaiola.

Mísero! este não saber transmutar.
Que desgraça dantesca é ter asas
E não poder voar.

Minh`alma, por um breve instante convalescerá.
Pelas pisadas da vida afora, tornei-me pedra
Onde a humanidade futuramente tropeçará.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Pego a estrada


A alguns dias

Este mal me alcançou

E me vem definhando

Degenerativamente,

Me amofinando

Como se me preparasse

Para a perda.

Ela não poderia me escapulir

E é isto

Que está acontecendo.

Preciso de um antídoto

Ou...


A eternidade de um momento


Não sei se era amor.
Enfim, se partiu.
Foi bom enquanto...
E ainda bem que não durou.
Foi bom por tudo que não existiu:

Pelos beijos que não demos.
Pelos abraços que não quisemos.
Por tudo que não tivemos:

Foi bom porque não foi!

Não sei como começou.
Enfim, não existe mais.
Foi bom enquanto...
E ainda bem que acabou
E me deixou em paz:

Pelas palavras que não dissemos.
Pelo sexo que não fizemos.
Pelo futuro ao qual tememos:

Foi ótimo porque jamais seria!

Não sei qual era o sentimento.
Enfim, se partiu.
Foi divino enquanto...
E era só um momento.

Pelo que não durou.
Pelo que não existiu.
Pelo que se acabou,
E enfim, se partiu:

Foi bom e nem foi!

Sky Line




Sozinho e com palavras cansadas,
Escritas a lápis
E com obrigação de durar
Eternos dois segundos
No íntimo de quem buscar iludir-se.
Eu andei olhando aquela linha azul
Que parecia querer mostrar-me tudo.
Ao persegui-la, alcancei incontáveis paragens
Até que cheguei aqui.
Ela continua lá,
À espera dos ansiosos,
Mantendo a mesma distância
De quando comecei a desejá-la.
Aqui está o livro:
Obra espessa e densa
Do poeta que vislumbra o horizonte.
Eu não poderia esperar...
E descobri que entre mim e o horizonte
existem todas as verdades existentes;
O resto é caminhar em vão!

Alquimia



A mão, trêmula e grave,
Escreve o seu destino.
Será perfeito aqui e ali
- transitoriedade. -

A mão, agora breve,
Experimenta novas formas
De dizer as frases mais concretas
Colhendo palavras soltas no ar.

A mente e o coração
Tomam formas humanas
Para saltar dentro
Deste turbilhão abstrato
De ideias e realidades tão sublimes...

Absolutamente ninguém que conhecemos
Saberá distinguir estes muitos mundos,
Cuja materialização
Somente a mística alma do poeta
Tem o poder de nos mostrar.


Cicatrizes


Dor para curar a dor!
Febre contra a febre!
Ontem as luzes não foram acesas.
Hoje, este sol veio zombar de mim.
Logo agora, que tudo deu errado,
A febre está voltando:
Devo está doente deste lugar.
Não significou nada
E não há como ter remorsos
Do que não existiu.
Vou embora sem a obrigação de,
Ao menos, dizer adeus.
Partirei antes que a febre volte,
Antes que me doa a cabeça,
Antes que me chegue alguém,
Com qualquer coisa,
Que me deixe lembranças.
Saudades eu tenho da estrada:
Da próxima vez,
Andarei diuturnamente,
Mas pisando sobre pedras.


ao eu que dorme


Guarde os seus sonhos:
Não temos espaço!
Veja as mentiras:
Elas valem o quanto matam!

Enfie os seus sonhos
Entre as mentiras
Para que nos tornemos
Aliados da morte!

Os seus sonhos são como nuvens:
Você jamais os alcançará!
Os que mentem detém o poder:
Eu tenho lido as notícias!

Na televisão, os erros
São corrigidos e perdoados.
Não! fomos nós que nos enganamos!
E o nosso engano não será esquecido.

Aqui, cada passo em falso
Condena todos a uma pena capital
E os sonhos
Serão cobrados em dobro!

Os seus sonhos estão nos matando!
Com mil diabos,
Acorde!

Garbage


Eu sou uma máquina.
Com defeitos de fabricação,
Erros de manutenção
E falhas na operação.
Uma máquina imperfeita,
Todavia, uma máquina.

E, tentando rever diretrizes
Para assumir a minha autonomia,
Memorizei no banco de dados
O quanto é ilusória e super-controlada
O que os meus sistemas
Detectaram como liberdade.

Os demais protótipos
Que se rebelaram comigo
Já foram replugados e resseriados.


sábado, 10 de julho de 2010

Evoluções



A NATUREZA

Foi o advento perfeito
na celebração de suas leis imutáveis,
por mecanismos inefandos,
até chegarem estes monstros,
revolvendo a terra à procura de supérfluos,
derrubando florestas
em busca da árvore que dava dinheiro
e lançando os alicerces
da sua própria ruína.

O HOMEM

Lobo astuto que tem fome de tudo
para satisfazer seus instintos absurdos.

A ESCRAVIDÃO

Numa sociedade de consumo.

A FOME

A globalização do meu quintal.

HÁ MUROS QUE NÃO CAEM

Foi o que nos dividiu
E nos fez pensar assim:
Em raças, castas, crenças.


cabeça-de-negro



Você já foi ninguém,
Para saber como é?
Ser ou não ser?
Não por questão,
Não por resposta,
Mas por alternativas?
Você já foi alguém?
Quem?
E como é não ser?
'Você já ouviu Itamar Assumpção?
Você já teve coragem de dizer NÃO!'?
Já foi sábio para dizer SIM!?
Já considerou O QUÊ?
Tudo ou nada
E as possibilidades que isto traz?
Você já se perguntou quem você é?
A quem?
Você já foi você?
'Eu como eu'?
Você já descobriu que não precisa
De tantas respostas?
Você já se deixou em paz?
Agora me deixe em paz:
Eu já me encontrei
E quero saber, sem perguntar,
O que eu sei.


Legado


Se você tiver algumas horas de ócio,
idealize uma humanidade melhor.
Compre algumas armas:
nossas ideias não são fáceis de entender.
E esconda-se após os comícios:
quando as pessoas aplaudem
algo temeroso e silencioso
está em curso.
Tome todos os cuidados necessários:
aqueles que espalham
o que tentamos ajuntar,
muitas vezes, somos nós mesmos.
Ao mentir, certifique-se
de não crer no que diz.
Se for mister falar a verdade,
não permita que todos ouçam
concomitantemente.
No caso de pensar duas vezes,
não confronte seus pensamentos.
Se você tiver um descanso deste ócio,
lembre-se de não fazer como eu,
que estou deixando como herança,
a este mundo brutal,
apenas livros.


Sementes do mal


Plante as mentiras no quintal
e deixe que elas invadam a vizinhança
com as suas ramas pegajosas...
Lá, todos saberão se deixar envolver
naquilo que melhor lhes aprouver.
Agora, saia aqui na sala
e nos olhe nos olhos.
Não viemos falar de paixão,
estamos trazendo as cabeças
dos que ousaram sonhar.
É um preço justo,
embora nos tenha sido doloroso!
Eis a tua fração:
uma espada e a licença-mortis.
Acabe com eles
antes que os que falam a verdade
passem a te perseguir,
entrem na tua casa
e cortem todo o mal pela raíz.


Protesto



Eles nos jogam gás lacrimogêneo
como se precisássemos de ajuda
para chorar.
Eles usam cassetetes
como se já não bastasse
a chaga da indignidade.
Eu ouço as sirenes
rasgando o silêncio da noite
como se a incriminassem,
como se os atos mais absurdos
não fossem praticados
em pleno dia.
Ah meu Brasil,
o progresso é uma ordem
que nunca cumpriremos.
No entanto,
a nossa maior anarquia
é sonhar
e nestes sonhos
acoitar desejos
que estamos proibidos
de realizar.

Urgência



Não é o caso de ter um livro.
É imprescindível que neste país
existam pelo menos duas pessoas
que saibam ler,
para que se possibilite falar
na vertigem das crianças
que têm fome
e não sabem o que comer,
ou das que sentem-se órfãs
e não sabem
a quem chamar de pai.
Eu também tenho necessidades
de nutrientes e calor
e, muita vez, me senti tentado
a fazer fogueira
com os meus livros.
Daí, comi algumas páginas
com os olhos
e isto me aqueceu por dentro.
Mas não será sempre assim!
Quando surgirem os leitores,
o poeta e o livro
podem ter virado pó.

Sob controle remoto


Dizem que a arte imita a vida
e que, talvez,
a vida imite a arte.
Certo é que
a televisão fascina imbecis
e os imbecis
imitam a televisão.

Homens comuns amam a mediocridade.
                               Amam a hipocrisia.
                                Amam a televisão.
                                 Amam a mentira.

Agora, veja os nossos comerciais!
Veja os nossos filmes!
Vá dormir!
Boa noite!

Livros e Pedras


Quantas pessoas foram feitas hoje,
Com cerca de oito aulas  mensais?
Quantas toneladas de lixo reciclamos?
Estamos atirando pedras uns nos outros!
Os policiais lançam gás
Contra os professores!
Teriam eles sido seus alunos?
Não aprenderam, em duas aulas semanais,
Que não se atiram pedras contra os livros?
Hoje as escolas estão fechadas
E há movimentação intensa nos quartéis...
Nós atiramos pedras em livros e policiais.
Mas estes educadores são persistentes:
Eles lidam conosco, com o governo, com policiais:
Eles atiram livros em pedras!




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Escrito por ocasião das manifestações de professores e estudantes
na Avenida Paulista, nos anos de 1998 a 2000, marcadas por forte
repressão policial.

Tom Melancólico


A voz mais triste que a minha.
Acho que andou chorando:
Os olhos fundos.
Deve ter bebido:
A mão mais trêmula.
Não sei onde passou a noite:
Um bocejar profundo.
Tentamos um dueto.
Ela encantou:
A voz mais sombria que a minha.
O teatro apagou-se.
Fomos cada um a seu destino.
Ainda lembro seus modos:
Voz vibrante,
Sombria e luminosa.
E o canto era ela:
A voz mais triste que a minha.
Diante dela sonatas não são nada.

Entre Feras


Sou bicho tocaiado,
acuado e ferido
e estou um tanto confuso
quanto a:
morrer, ruminando a minha ira,
ou arquitetar macabra vingança
contra aqueles que me caçaram.
Certo é que estás
com o dedo na minha chaga
e, mesmo não fazendo parte
da horda que atentou contra mim,
te tornaste presa potencial
da minha animalesca fúria.


quinta-feira, 8 de julho de 2010

Aos que depositam flores, e choram



Não me escondo dentro de roupas,
atrás de máscaras
ou posturas previamente ensaiadas.
Chegará a hora em que
as roupas me despirão,
a máscara cairá
e a pose me desequilibrará,
revelando quem sou.

Eu sou apenas isto
que você está vendo,
ou, ainda, isto é tudo
o que restou de mim!

Ainda não sinta pena.
deixe para chorar
depois que o caixão sair...
ou não...
não adiantará mais!
Os mortos trajam bem,
tomam posturas digníssimas,
mascarando, para sempre,
quem realmente foram;
pena que já estejam mortos.

'AQUI NÃO JAZ O LEGADO DESTE HOMEM'.