O hábito não faz o monge.
O monge faz o hábito
E o habita
E o habitua a si
E nos habitua
E se habitua
Ao hábito de habituar
Os outros
Habituado ao próprio hábito.
poesia marginal
O hábito não faz o monge.
O monge faz o hábito
E o habita
E o habitua a si
E nos habitua
E se habitua
Ao hábito de habituar
Os outros
Habituado ao próprio hábito.
"É preciso caos e frenesi
Para dar à luz
Uma estrela dançante. "
Nietzsche.
Se não sabe ou não quer dançar
Conforme a música,
Encontre uma música
Conforme a sua dança.
Só não pare de dançar.
Só não censure a dança e a música
Dos outros!
Lá, onde me esperam,
Não vou!
Que faria lá?
Um poema agradável?
Seria um deus de rituais?
Amo que me convidem,
Mas só vou onde
Não querem a minha poesia.
Não sei fazer
Da luz de Luiz
A minha melodia,
Mas faço
Da Melodia de Luiz
A minha poesia.
Quando a encontrei,
Sabia que me faria chorar muito,
Mas estava tão em paz
Com o meu destino!...
Ainda faço
O que o macaco fazia.
O que me preocupa
É o outro macaco
Transformado
Em máquina.
No fundo,
A vida é um grande vazio.
Se fosse um abismo,
Haveria, ao menos,
A vertigem da queda,
O espanto,
Alguma borda ou esperança
No que me agarrar...
Eu sou um nada
No oco do mundo.
Tempos de luta silenciosa
Distanciamento
A sensação de estar
Sozinho no mundo
Ah esta saudade
Ah esta solidão!
Eu como sonhos
Bebo nuvens
Ando por aí
Só somente só
Eu, a solidão
E a multidão.
A minha inadequação
Juvenil
Ao mundo
Era a poesia
Reclamando um hospedeiro.
Será a tendência
Suicida
A poesia liberando-me
Do encargo?
Que eu sou
O amanhecer não revelará.
E quando o pesadelo do dia acabar,
Volto às sombras:
Me descubro e me perco
Procurando uma metade minha
Perdida em convenções...
Ai-me! Poeta faminto!
Sem títulos e sem amor!
Se, ao menos, eu fosse algo
Além do aplauso e do riso
De quem me prende
No picadeiro de horrores
De sentir e saber
Que sou algo... incompreensível e insensível
E choro a minha comédia
E rio a minha tragédia
Enquanto os outros riem e choram
apontando para mim,
Como se eu fosse espelho...
E o meu reflexo neles
É só solidão só.
Alguém só mente para mim
Quando eu quero que minta.
Só digo mentiras
Quando finges me ouvir,
Quando não suporto mais
O que sou,
Digo a verdade num poema:
Aí, mente quem leu;
Aí, mente quem gostou
E eu me torno Camões.
Escreves teu poema com alma,
Com todo esmero que guardas
E planta-o numa rocha
Que nem Morgana,
Nem Merlim,
Nem Arthur
Conseguirão arrancá-lo.
Esta é a tua Excalibur:
Algo tão tu
Que nem mesmo
O mais vil dos editores
O aceitará de outras mãos.
Só tu o resgatarás,
Oh maldito!
Oh irresponsável!
O maior de nossos crimes
- Nós, macabros palhaços -
É transformamos o inferno em piadas,
E tropeçarmos, e cairmos,
E derrubarmos
A nós e ao público
Que, feliz, aplaude e ri:
Maldita distração!
Depois, voltarmos às jaulas
- Caras de choro, máscaras de riso -
Enquanto nossos senhores
Riem de bolsos cheios,
Quando deveríamos atear fogo
Aos circos, bancos, igrejas e palácios.
Assim, talvez,
Fosse cômico e justo
Rirmos de tudo e de nós mesmos.
Discutir filosofia, cultura e artes
Aos socos e pontapés
Ou comendo farinha seca
É um tanto obscurecedor.
A felicidade
De comprar uma vassoura nova
E entregar a casa
Ao abandono.
Acho que,
Mais uma vez,
Deixamos algo importante
Pela metade.
Não quero mais escrever!
Queria só dormir,
Como os homens felizes
Que assistem televisão
E se acorrentam à escravidão moderna
Voluntariamente,
Sem questionar, sem pensar,
Sem sonhar com um único
Instante de amor e fúria.
Sorte a deles me deixarem em paz
No meu calabouço:
O primeiro que abrir esta grade,
Eu mato!
Dançando conforme a música
Ou cantando conforme a dança
- Ritmo fora do compasso -
O troglodita das cavernas cibernéticas
É o mesmo das cavernas dos australopitecos,
Mas sem muitas perspectivas da realidade.
Desde os primórdios
Até hoje em dia
Eu ainda destruo
O que o macaco fazia.
Escrevo à noite,
Rasgo pela manhã.
Se cada palavra fosse
O meu coração
- Como dizem -
Quão bom seria!
O coração do poeta
É um abismo
De solidão dos outros.
Amar? Eu?
Dá-me meu dinheiro de volta
E te faço um poema...
Um livro só
É como um único prato
Que alimenta dez pessoas,
Mil pessoas,
Um milhão de pessoas,
Um mundo inteiro...
Mas, cuidado!
Há livros tóxicos,
Pessoas gulosas e gostos mesquinhos.
Todas as religiões existem!
Há templos
Livros
Dogmas
Sacerdotes
Sectários
Vítimas
E detratores.
Ateus e deuses, não!
Onde estão?
O que fazem?
A quem inquirem?
Num mundo de terra, fogo
Água e ar, se não causa bens nem males,
Simplesmente não existe!
Não sei por onde ela anda
E a quem tortura agora
E esta paz está me consumindo
Como uma saudade
De um tempo de solidão e tormento.
Se ela volta para tirar a minha paz,
Sou capaz de amá-la, novamente,
Acima de qualquer dor...
Mas, me vingaria.
Seco minhas lágrimas
Umas nas outras
Nesta saudade que choro.
O trabalho me consome
Seis dias por semana.
Só então, volto para casa,
Só então , alguém me ama.
Para que tanto trabalho
E tão pouco amor?
Quando os lupanares
Fecham
Muitos amores verdadeiros
Morrem
E todos voltam para casa,
Para se prostituir.
Disse-me Zaratustra
Que os poetas não mentem;
Disse-me que só há
Duas mentiras:
A verdade e a poesia.
- Ah, a vida também.
- Argumentei.
- Os poetas vivem?
- Perguntou-me Zaratustra.
Quando Narciso chegou ao lago,
Lá estavam os últimos caridosos
Esperando o lago encher,
Novamente.