Pierrot

Pierrot
la tristesse

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Preguiça


Quem, como eu,
Está à frente da humanidade,
Pode se dar ao luxo
De caminhar bem devagar...
Arrastando os pés...
Fazendo pirraça...
Como se rumasse para uma cruz
Que não está sobre seus ombros
Nem tem já os braços abertos.
Nunca houve razão para ingerir
Estas drogas que tanto me aceleram
Como se eu tivesse pressa
De rejuvenescer e morrer.

Nada deste mundo


Era um homem solitário:
Deixou todo amor que lhe foi dedicado
Por um momento de solidão
E não consta, até hoje,
Que tenha chorado por companhia.

Era um super-herói:
Suportou todas as pancadas da vida
Sem jamais encolher o peito
E não consta, até hoje,
Que tenha jurado vingança.

Era um grande palhaço:
Zombou das luzes coloridas da ribalta,
Preferindo o obscurantismo das sarjetas
E não consta, até hoje,
Que tenha reclamado fama.

Era um verdadeiro artista:
Trocou toda a grandiosidade do mundo
Por uma vida de bar em bar
E não consta, até hoje,
Que tenha pedido troco.

: Dizia tudo que pensava...
E pensava antes de dizer.

Estranha busca


A guerra é inominável,
Crível somente porque somos humanos,
Legítimos representantes do inferno na terra.

Na guerra é assim:
Como que por um momento justo,
Deus dá a coragem,
O Diabo empresta a malícia
E assim seguimos a evolução,
De passos largos ao retrocesso.

O inimigo, para financiar a sua luta,
Agora vende decepções em spray
E formato televisivo:

- Isto é a paz!

Vazio


Não escrever nada
Não é o fim.
São apenas palavras.
A dor é mais real em mim.

Eu quis fazer um poema negro
Tendo a noite como musa.
Expressei tanto pavor e medo
Que compreendi sua recusa.

Fuja do meu abraço
- Ó mulher cruel -
Trazendo paladar amargo
À boca que te beijou com mel!

Janela íntima


Daqui eu vejo a lama:
Os poetas comprando sexo
E drogas.
Não há quem os respeite.
Há quem roube poesias.
Tento me manter à distância
Com um verso indignado
Que não diz nada!

Daqui eu vejo o caos:
Os poetas se vendendo.
No mesmo lote:
Poemas, alma e sentimentos.
Não há quem se importe.
Há quem devolva a dor.
Tento refazer e publicar
Uma poesia que me foi rasgada
Por querer dizer tudo!

Espírito do mar


Navegar comigo
É Deus soprar a vela
E eu dizer:

- Sou eu a torrente dos mundos!
O tempo sou eu!
O vento é meu!
E eu tudo mudo!

E o mar responder:

- Deus sou eu!
E Deus lhe guarde!


Antes que tudo se dissolva



Neste momento,
Neste exato momento,
Há uma estrela explodindo
Em alguma galáxia distante,
Há pessoas morrendo de fome,
Crianças abandonadas
Ou institucionalizadas,
Mundos em ruínas...
E vocês preocupadas com roupas!
Ora, que tudo se dissolva!
Eu quero é andar nu.
O meu mal é fome:
Eu tenho tanta fome
Que chega a ser abominável.
Eu tenho tanta fome
Que a minha fome me farta.
O que eu quero
É me fartar desta fome
E depois... ah!...
E depois... tirar a roupa!