Pierrot

Pierrot
la tristesse

terça-feira, 22 de junho de 2010

Ela Contra a Luz


Uma palidez de findo inverno
Num corpo de verão.
É soberbo imaginar
Que por trás daquela blindagem
Quase bélica
Há um poço de feminilidade;
Por trás daquela imponência divina
Uma beleza medrosa, acanhada;
Um desejo por se lhe aflorar.

Nauta do infinito


O tempo doma os rebeldes
estabelecendo cotidianos.
Isto é regionalismo:
as pessoas se apegam
a pequenas misérias
e não largam mão,
não arredam pé:
uma escravidão voluntária e gratuita.
Loucos - perdem-se dos sonhos para o irreal!
Suicidas - fogem da realidade sem crer no fantástico!
Mortos - matam o que são e não se reinventam!
Ah, o tempo!
Ele passa e é eterno,
morre e se refaz
- IMORTAL! -
Mas eu estou falando de mim:
Eu sou o mestre das estradas.





último império



Somos os estágios
mais avançados do ser humano
porque desprezamos tudo que o maravilha.

Você está aí,
cheio de pensamentos de Éolo:

Com os ossos expostos no trauma;
com o pus à vista
na ferida aberta;
com as entranhas à mostra.

A fratura explícita
de uma moralidade jamais íntegra:

Os domadores da pedra,
educados pela mesma,
numa moralidade sem vigor;

A flecha disparada para o alto
como sustentáculo desta magnificência,
ou ampulheta,
do que se presume seguro e duradouro.



sexta-feira, 18 de junho de 2010

Uma Casa Sempre Vazia


Entrou na minha casa
pulando a janela
quando não havia mais nada
eu não esperava por ela.


Se abancou como queria
redecorou a minha sala
as coisas que eu não tinha
cobrou na minha cara.


'Tudo que você me disse
não foi da boca pra fora
me envenenou com esta sandice
me feriu como uma cobra.


Não importa a sua presença
não faz sentido agora
e se você me der licença
eu vou embora.


Sem você por perto
os dias foram passando lentos
comigo, tudo certo
me acostumei aos lamentos.

Sem desejar a sua volta
estive lacrando as portas
nem amor, nem revolta
um adeus que se suporta.


Envenenou meu coração
me feriu como uma cobra
tudo aquilo foi ilusão
não faz sentido agora.


Tudo tinha uma frieza intensa
não foi da boca pra fora
e se você me der licença
ah! eu vou embora'.

Os loucos adeptos de Ícarus

( Pássaros Da Imortalidade )

Um céu de poesia
Um sol de raios flamejantes
Cair na terra, cair no mar
O que importa é voar.
Vai Ícaro, vai,
Às bençãos da glória!
A segurança dos que têm
Os pés no chão
É um sonho vão
De mediocridade.
Vou como Ícaro:
Voar é a única eternidade.
Ícaro prefere o precipício
A se prender ao nada.
Eles podem sonhar,
Formar novas realidades;
Ícaros podem voar.




poesia: o pão e a fome



A fome que me acometia
Já não remetia à poesia.
Não há como reinventar a fome:
Nem substantivos, nem pronomes.

- Do que vives tão orgulhoso? -
Diz o poema. - coisa feia:
O poeta de barriga cheia
É um homem comum e preguiçoso! -

E veio outra vez a fome
(ânsia louca de gritar teu nome),
trouxe vazio ao estômago o amor,
Dentro de mim, cheio de nada e pavor.

- Do que te fazes tão esperançoso? -
Diz o poema. - caíste numa teia:
O poeta de barriga cheia
É um homem comum e preguiçoso! -

Todo o mal do mundo - sociedades -
Todos o caos, por toda posteridade.
Paguei por um lugar na praça.
Todas as praças - dei de graça.

- Do que reclamas tão estrepitoso? -
Diz o poema. - vidas alheias:
o poeta de barriga cheia
É um homem comum e preguiçoso! -

Por consequência fiz a guerra,
Comi a mim, comi a terra.
Foi-se a razão, veio o ardil,
À tua palavra respondo com fuzil.

- Do que te sentes tão rancoroso? -
Diz o poema. - sangue sem veia:
O poeta de barriga cheia
É um homem comum e preguiçoso! -

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Se houver algo melhor do que comida,
Traga para a sobremesa.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

perspectivas



Leve as mãos à cabeça
e mantenha a calma;
faz de conta
que tudo está bem:
eu vivo reclamando mesmo.
No mais, sempre nos acertamos,
ainda que temporariamente...
mas foi esta efemeridade
que perseguimos nesta vida.
Na verdade,
não tenho mais forças para chorar.
Vou esquecer
o que já não existe.
Antes não havia muita coisa;
eu preciso lembrar que
também o amanhã
não será nada.




sem pecado



A modéstia traz em si

Um pecado capital:

A hipocrisia.

Sou hipócrita às vezes.

Jamais modesto.


terça-feira, 1 de junho de 2010

REVIDE


O rancor que as palavras trazem
traduz o ódio que eles plantaram
nos campos férteis mortos:
as crianças que não sorriem,
os poetas sem voz,
concebendo poemas revanchistas
pelo que nos foi arrancado
tão brutalmente.
E tudo o que tínhamos
eram, tão-somente, sonhos!


________________
Daqueles que são nascidos
para fazer a guerra,
Osama Bin Laden
é o maior homem que já andou
sobre a face da terra.





civilização falida


Terroristas somos nós
Aqui, em paz.

Terrorista és tu
Com fome - calado;
Sem educação - não matas;
Sem dignidade - não-revel.

Terrorismo é não trucidar,
Não vingar.

Tacar bomba é divino,
Humanamente divino.


Poço Sem Fundo


"Mateus, primeiro os teus." ( dito popular )


Primeiramente, pule você;
eu vejo o que acontece aqui em cima;
você pula e me ensina
e eu pulo depois que aprender.

Antes, afogue a sua revolta;
eu vigio a beira do abismo;
mas, devo avisar, sem cinismo,
que, pulou, não tem mais volta.

Eu amo esta febre que me lavra;
você já escolheu o seu caminho;
eu pulo quando estiver sozinho
e não me socorrerem as palavras.



Dor-de-cabeça


As dificuldades de um dia
se não matam durante a noite,
passam no dia seguinte.

Eu ouso acreditar
em sequências melhores.

Criemos, então, algumas ilusões!
Depois da embriaguez
não restará muita coisa.
A verdade está nas mãos
dos que sabem mentir.

bem, para nós
ficam as adversidades de hoje
e, se não morrermos nesta noite,
seremos melhores pela manhã.

Eu ouso acreditar
no dia seguinte.

Para Ressuscitar Augusto dos Anjos


Era a assombradora sensação de um aborto
O martírio daquele desgraçado artista,
Isolado de tudo, no seu mundo de autista,
Sem conseguir formar poemas, ainda que absorto.

Não estava isento da maldição antropomorfista,
Na produção de seu poema torto,
Atestando que ainda não estava morto,
Subvivendo como o último altruísta.

Ainda havia carne presa entre seus dentes,
Numa antropofagia danada de corpos sãos e doentes,
Não vomitando as suas palavras sangrentas...

E, como tardava-lhe o pensamento
Remexia-se, num último esboço violento,
Como lutasse para sair de uma placenta.



Longe da Sala de Justiça

( Nem Cidadãos Nem Heróis )


Não somos tão fortes!
Vivemos sob a caricatura hipócrita
das relações humanas,
esbarramos sempre nas muralhas
individualistas e impenetráveis das sociedades,
que nos impõem
um jogo de cartas marcadas... e aceitamos!
No bar - onde nos reunimos
para tentar mudar o mundo -
não temos super-poderes,
estamos mortalmente vulneráveis
a todos os tipos de armas
e ninguém narra as nossas epopéias...

"... Enquanto isso, na sala de justiça..."


Anjos Não Gostam De Sexo

( E Como Mentem! )



Para ter o teu amor
eu só preciso enfiar a mão no bolso
e sacar de uma quantia que não me serve
nem para dar de esmola.
Para você, basta fingir um pouco:
sem dor, sem tédio;
um até breve, um muito obrigado sem troco.
Foi somente mais uma noite
de sexo vulgar e desejos sujos!
Que nos importa?
Não nos restam marcas,
senão as das tuas unhas nas minhas costas,
do meu soco no teu olho
e das mentiras que vivenciamos
para suprir o vazio em nossas almas.
Vestir as roupas, apagar os cigarros,
e fechar as portas para nos escondermos do que,
por algumas horas,
significou uma fração da felicidade em nossas vidas.
Acho que não acabou bem!
E das obscuridades que haviam antes disso,
surge mais uma dúvida que jamais esclareceremos:
- Qual de nós realmente se prostituiu!?