Pierrot

Pierrot
la tristesse

terça-feira, 30 de março de 2010

Fome e Circo


Na terra,
Eu sou um jovem ator
Que representa,
Na vida real,
Um papel de Arlequim.

Ao tempo que,
Na arte de Pierrot,
Enceno a vida monótona
De um poeta de versos mórbidos.

Ao chorar vejo um público feliz:
O fingimento me venceu!

E ao morrer,
Ir de excursão ao céu,
Comprar bilhetes vip`s
Para desfrutar na terra
Guarida em honrosos sepulcros.

Assim somos uma trupe:
Rostos pintados de alegria
Para disfarçar o rancor e o remorso
De uma vida inteira
De vaias e tortas na cara,
Em espetáculo que não acabará em risos.

Triste palhaço!
Miserável fim!




domingo, 28 de março de 2010

Novos Ventos, Novos Rumos



Quando eu quis chorar
Tentando impedir que o dia nascesse
Ele cortou as amarras
Quebrou as vidraças
Rompeu as grades
E zombou de mim
Enquanto me recompunha atabalhoadamente.

-"Para que esconder o pranto?
Eu vim hoje, outros virão
E tudo se transformará!"

Já mudou!
Nem começou e já me sinto sufocado:
Estou trabalhando por outras mudanças.



Engenharia de um sonho


Não se jogue de nenhum prédio ou viaduto hoje!
Amanhã eu arrumo todas as coisas.

" Não sei o que estou sentindo,
mas vai passar
E experimentarei grande alívio."

Não arme forcas ou presépios!
Os seus sonhos não morreram,
Apenas se transformaram em pesadelo.

"Mas tudo passa logo."

Porém, fique abraçada em mim
Pelo resto da noite;
Amanhã eu arrumo todas as coisas.
Eu sou o personagem dos seus sonhos
Que prenuncia a realidade;
Das suas fantasias
Apenas eu sobrevivo
Para, no dia seguinte
Arrumar todas as coisas.

"Eu já me encontro
Onde encontrei a mim."

Mas existem outros lugares!
Tente dormir;
Amanhã eu dou um jeito em todas as coisas.


Velho Demais


Já me sinto cansado.
Durmo durante a sessão das dez.
Dos sonhos acordo passivo.
Estou ficando velho demais.

Morte anunciada


A normalidade
tem me castigado
com o tédio;
A poesia
com o silêncio;
As horas
vão passando...e só.
E cada tique-taque
é cortado
por um vazio
como se
a minha solidão
estivesse a pulsar.
Eu tenho rezado
por terremotos,
algo do qual
eu precise fugir,
pois, ficando aqui
com a normalidade,
contando as horas
e sem a poesia
o tédio,
o tique-taquear
e o silêncio
minarão
o meu poder de palavra.


Tarde chorando pétalas




Ela chegou - era a virgem de nívea pele.
Pálida - quase transparente -
Doce ninfa do amor,
Aérea como donzela de antigamente...

Já conservando um não sei quê de poderosa
Desafiando a tarde
Que cai desfolhando a rosa.

Estava aqui - e tudo orbitava em torno.
Mulher - despida de pudor;
Sonho - quando se sonha...
Real - e minha - enquanto for...

Inda quando triste embelece airosa
A tarde
Que cai desfolhando a rosa.

Foi-se - enebulou a atmosfera.
Solidão - fui deixado para esquecer;
Ela levando consigo
O que já era o meu ser...

Arfando adeus em nota vaporosa
No desespero da tarde
Que cai desfolhando a rosa.

O erotismo de um beijo







O beijo

formidável e divinal
ato das bocas
dos homens e dos anjos...

Que umedece lábios e alma,
carne e espectro.
Ferve o sangue, faz estremecer,
ou ainda,
ordena que todos os sentidos o façam.

E circula pelo corpo,
tomando células e órgãos febris,
tal qual o álcool ou outro veneno,
expandido pelo coração em fúria,
sendo convulsionado pela paixão.

Inexplicavelmente esplêndido
é simplesmente desejá-lo:
- pecado de santos e pagãos!-

Mas tê-lo é perdoável!

Porque as bocas
dos homens e dos anjos
foram feitas para beijar.



Homem Natural


O "pra sempre"
é a primeira ilusão que perdemos.
Tudo o que construímos,
cedo ou tarde,
queiramos ou não,
prestos trataremos de destruir.
Assim foi com as pontes,
as asas, os barquinhos de papel,
e por fim, com os sonhos:
Quando tudo acabou!
Naquela manhã, olhei o céu
e não mais conseguindo
formar imagens inimagináveis
de criaturas espetaculares,
brincando com as nuvens,
percebi que havia perdido
a segunda inocência:
foi quando tudo acabou!
como se fosse eu homem natural.
Seguindo adiante,
revelou-se um enorme vazio
dentro de mim.

Desespero e Blues

ao poeta Elias Donizete Dacal da Costa, amigo.


Este rosto no espelho
Já não te diz a verdade.
A tua embriaguez é morte
Mas não abrevia tua dor...

Tu foges!
Mas, na casa vazia,
De quem tu foges?

Há uma prisão
Em cada rua,
Há muros na tua sala
Que as tuas asas não transpõem...

Outro gole
Não afastará o frio;
Pular desta ponte
Vai dar no mesmo rio!

Agora pegue o baixo
E toque um blues;
Volte a viver:

Pular deste prédio
Vai dar no mesmo tédio!



Homo-Erectus - Animal Social


Homo-erectus
Animal social
Verme revolucionário
Bárbaro sanguinário
Monstro solitário
Primeiro mandatário.

Homo-erectus
Animal social
Precursor da ira
Manipulador da mentira
Artífice da mira
O primeiro que atira.

Homo-erectus
Animal social
Zoon politikon
Zoon babilon
Zoon satiricon
Zoon ponto com.

Homo-erectus
Animal social
Canibalismo doméstico
Satanismo profético
Cristianismo patético
Charlatanismo poético.

Homo-erectus
Zoon non sapiens.



Redescoberta do Fogo



Os sistemas educacionais faliram:
Tanto o pedagógico
Como o familiar.
Vivemos em sociedades
Sem sermos sociedade;
Somos individualistas
Sem termos individualidade.
E, se levamos bilhões de anos
Para evoluir da forma vermicular
Até ao que pensamos ser hoje,
Não levaremos mais que
Algumas décadas
Para regredir às cavernas,
Mais brutos
E perigosamente armados.