quarta-feira, 25 de março de 2015
provocações
- O que é a vida?
- Há vida?
- Claro que há.
- Não está tão claro assim.
- O que é a vida?
- Se há, cada qual saiba da sua,
Sem pedir ou dar explicações.
- Se não há, do que se morre?
- De não tê-la.
- Dê cá um abraço,
Que é a única coisa viva
Nesta pantomima ilusória.
E posemos para uma foto
Que só sairá nos jornais
Se um dia,
Eu e você existirmos.
quarta-feira, 18 de março de 2015
Milonga de Fins de Março
Nesta tarde,
Como choveu
E a temperatura caiu uns poucos graus,
Flagrei-me cantarolando Vitor Ramil
E revisitando a Estética do Frio
E, como em São Paulo
Já não temos inverno rigoroso,
Ou mesmo moderado,
Tive estas saudades pueris
De um frio que,
Ao chegar do semiárido,
Declarei odiar com forte acento.
cotidiano
Perdão.
Sei que me dispus
A fazer o impossível,
Pelo menos,
Três vezes ao dia,
Todos os dias.
Mas há dias,
Não raros,
Nos quais
A minha cota de impossíveis estoura.
domingo, 15 de março de 2015
Assimilar-me
Algo em mim mudou
Com uma profundidade tal
Que mudou o mundo
À minha volta.
Eu,
O meu mundo,
As minhas batalhas,
Precisamos nos encontrar,
Nos tornar um só,
Novamente.
quinta-feira, 5 de março de 2015
estilingada
Feriste meu Passarinho.
Ainda gosto de ti,
Mas,
Enquanto a minha Corruíra não cantar,
Estarei magoado contigo.
Imediatismo
Tudo é muito instantâneo:
Nascer
Morrer
Ser feliz para sempre
O tempo é inimigo da perfeição!
segunda-feira, 2 de março de 2015
Crepúsculo dos Deuses
Ah, Atlas soberbo,
Apeia este mundo de teus ombros,
Atira-o ao nada!
Ah, Tântalo farto,
Come céus e terra,
Bebe mares,
Vomita tudo!
Ah, Poeta insano,
Rasga os cadernos,
Cala-te boca,
Deixe a mediocridade por conta!
E que não reste verso sobre verso,
Que nenhuma Opressão sobreviva!
para reconstruir mundos
Esta crise atirou pela janela
Tudo o que eu tinha
Tudo o que eu era
Tudo! Espatifado no meio da rua,
Jazendo na sarjeta...
O que restou?
Eu sou Eu
E tenho a mim:
É só o que preciso para seguir.
Acídico
Deve ser amor
A gente não saber
O que sente
E sentir
Ficar perto
Não reprimir
Não negar
Não fugir
convulsões
Vá, mulher,
Antes que eu recobre a razão
E te faça prisioneira.
Sua obrigação para comigo
É ser feliz e fazer o que quiser.
Eu vou até aqui.
Talvez vá a outro lugar.
Ainda não sei.
A lembrança dela
É o meu porto-seguro,
Meu instante de paz
No que outrora foi febre.
Tudo tem seu lado doce
E seu fel guardado.
O que chamam amor também:
Bom quando começa,
Melhor quando chega ao fim,
E, no fim,
Nem é amor.
Cigano
Ah, já não me sinto prisioneiro desta dor!
Depois de tudo acabado,
E de uma forma insatisfatória,
Retiro todas as orações
Que empreguei neste transe:
Eu me encontrei
E preciso de um lugar para mim.
parto obscuro
Tornei-me poeta sem um único beijo.
Só a faca:
Na garganta e entre os dentes!
Se o amor é a segunda inocência,
Devo ter passado
Precocemente à senectude.
O nascimento de um poeta
É a mais horrível
Morte da inocência!
A virtude do Ócio
Ah, o ofício de poeta!
Ideias simples
Que revolucionam
Consertando mundos;
Cada loucura, uma música;
Cada música, um livro
E a cada livro
Um novo Eu
Descoberto
- Nu e Blindado. -
Curtume
Tenho a impressão
De dispor de tempo demais
E gastá-lo mal.
Sou uma anomalia aberratória
Nestas eras e sistemas
De vidas cronometradas,
Vidas sem tempo:
Sem tempo de se surpreender,
Sem tempo de se emocionar,
Sem tempo de viver!
E desperdiço todo o meu ócio
Num vazio de solidão e tédio.
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