Pierrot

Pierrot
la tristesse

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Fatalidade


Algum dia,
Quando ninguém estiver esperando,
Talvez aconteça o que todos queremos
E alguma luz nos cure do limbo
Que fizemos de nós.
Sonho por sonho,
Eu ainda acredito que haja algo
Que só nós podemos fazer.

... É uma falha de culparmos os outros
Pelo que só imaginamos,
Sentados,
Um cansaço de não querer nada,
Uma abstinência de estarmos sozinhos,
Condenados e com medo,
Sem portas perceptivas.

Um dia desses era só mentir
E consertar o que negligenciamos.
Uma agonia silente,
Um desespero calmo, quase santo.

Mentir...

Esperando que o desejo se realize...

Bem fácil.

Dos Grandes Vultos


Entre a ciência e a religião
- dois universos insépteis -
Há uma fonte
- a escravidão -
Onde todos bebem.
Os poetas também.
Mas estes últimos,
Como não são especiais,
Nem sabedores
Nem donos de nenhuma verdade em absoluto,
Precisam esperar a vez
E, enquanto esperam,
Contemplam o espetáculo grassante
Da mediocridade humana.

Sem Chorar


Já houve dias em que eu não quis sentir solidão.
Tive bons amigos, boa música,
Escrevi poemas canhestros,
Sem nenhuma técnica.
Ora, que tudo se dissolva!
Os que amam não reconhecem o paraíso.
Uma paixão traz sempre um céu consigo.
Eu amei, ah, e como amei.
Meus versos o digam.
Mas eu, meu coração louco,
A vontade de girar mundos,
As pedras nas mãos
Que as surras da vida me colocaram,
O joelho doendo,
Com medo que alguém encoste;
Elas indo embora com o primeiro
Que soube dizer palavras mágicas
- "EU TE AMO" -
As palavras que só vêm
Quando estou sozinho, sem amar ninguém...
Hoje eu senti solidão.


O Amante de Madame MIN

(Uma estória da idade média)


Ele chega nas sextas-feiras, à meia noite.
Entra e sai sem ser visto.
E quando alguém a importuna,
Volta nos seus sonhos e os torna funestos.
Não possui um nome.
No céu, onde há uma espécie de super-CIA
( que não mente, porém, não fornece,
Aos reveladores de mistérios da terra
Os conteúdos dos seus arquivos)
É conhecido apenas por um número.
Um número qualquer
Entre mil e seiscentos diabos.

A melhor metade de mim


Certa monotonia
até que me cai bem.
Algumas vezes, qualquer novo evento
Pode perturbar sobremaneira
Uma paz há muito débil.
Nada mais me prende aqui
Como o fez noutra ocasião,
Assim sendo,
Posso partir quando míster,
Mesmo deixando para trás
A melhor metade de mim.

Dois Mundos


Horas mortas!
E não me deu vontade de fugir.
Nestes dias tristes
Eu costumava partir.

Uma solidão ... e só.
É um novo tempo.
Talvez seja a mesma coisa
Mas em outro momento.

Não há saudade em mim.
Acho que morreu na memória.
Houve sim, um remorso
E uma lembrança sóbria.

Já não conto os dias
E eles me deixam em paz;
Não reviro o passado:
Não pensei que fosse capaz...

Eu me encontrei comigo
E não tinha os olhos vermelhos.
Eu e Eu, face a face,
E não estava ao espelho.

Eu disse: eu sigo.
Eu respondi: vou comigo.

Alimentando a Máquina de Guerra


Depois de hasteada a bandeira branca
Eu atirei contra um homem indefeso
E virei as costas
Enquanto o meu companheiro
O devorava, ainda vivo,
Numa antropofagia covarde e demoníaca...
Não consegui me lembrar mas,
Alguns anos antes,
Ele havia salvo as nossas vidas
Num acidente com o ônibus da escola.
E, como não pude ver o óbvio,
Não ponderei que, assinada a paz,
Seríamos, nós três,
Os melhores amigos do mundo
E trabalharíamos para transformar a humanidade
Numa raça menos sórdida.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Contra os Anões de Nietzsche


Só se me amarem.
Aí valerá a pena
Mover montanhas
Morrer no mar
Viver!
Dor?
Eu reivindico a cruz do mundo;
Solidão?
Eu cantarei pelos caminhos;
Traição?
Subo ao cadafalso de olhos abertos.
Mas só se alguém me amar.
E deve ser à vera.
Não importa se acham ridículo
Indecoroso
Louco
Eu?
Louco?
Ridículos são os outros,
Com sua decência hipócrita.
Se tu me amares
Eu mostro ao mundo
Que é permitido ser feliz.



Descartes morreu


De vez em quando
Paro para escrever um verso.
O tempo do poeta
É infinito vezes tempo ao quadrado,
E a conta nunca fecha.
Porque Cronos - Deus-Relógio -
Brinca de multiplicar
O tempo por eternidades,
Deixando sem orientação
Quem faz contas de mixarias,
Quem disperdiça a vida
Contando as horas,
Vivendo, e só!
Sem tempo de viver
Ou tentando atropelá-lo.