Pierrot

Pierrot
la tristesse

domingo, 17 de outubro de 2021

Audácia

  

Eu sempre sinto medo,

Mas a realidade

Nunca me dá escolha

Senão lutar.


Já tenho inimigos suficientes

Para uma vida de guerras sem fim:

Não preciso combater

A quem amo, a quem me ama.


Tenho quase meio século

De vida e lutas:

Eu sei quanto

A minha cabeça não vale.


Solidão de Pensar

 

Dói pensar

Que ela prefere

Estar sozinha,

Como se houvéssemos nascido

Para esta solidão

A dois.

Tem que ter sobrado

Algo com ela.

Não é possível

Amar tanto assim, sozinho!

Eu não consigo seguir em frente.

Não sobrou nada para mim.

Não sobrou nada de mim.

E me perco da realidade

Muito facilmente.


ENQUANTO OS INTELECTUAIS RECLAMAM ÓCIO

 

I - Enquanto a intelectualidade reclama ócio, 

O discurso da não-violência

É a principal arma prática

Dos violentos.


II - Enquanto a intelectualidade reclama ócio,

Armas são correntes, 

Nós corrediços;

Não ponhas teus pulsos

Nem teu pescoço nisso!


III - Enquanto a intelectualidade reclama ócio,

Nas redes sociais,

Vence o debate quem profere

A maior ou a última estupidez.


IV - Enquanto a intelectualidade reclama ócio,

Apropriar-se não só dos termos,

Mas dos conceitos, aplicações e implicações.


V - Enquanto a intelectualidade reclama ócio,

Será que um dia

Os pobres se cansarão de alimentar os ricos?


VI - Enquanto a intelectualidade reclama ócio,

O STF ainda reza missa em latim.


VII - Enquanto a intelectualidade reclama ócio,

Os representantes do povo, na democracia,

Ainda habitam suntuosos palácios.


VIII - Enquanto a intelectualidade reclama ócio,

Bolsões de miséria são bolsões de violência:

A criação da miséria é violenta.

A manutenção da miséria é violenta.

O massacre da miséria é violento.

A paz na miséria é violenta.

E a tudo a miséria reage violentamente,

Entre pares,

Quando deveria reagir violentamente

Contra a violência

Que a cria,

Que a mantém,

Que a massacra 

E a apazigua!


IX - Enquanto a intelectualidade reclama ócio,

Soltemos os presos políticos!

Prendamos os políticos de carreira!


X - Enquanto a intelectualidade reclama ócio,

Eu sou um dinossauro

Ansiando por um meteoro.


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Flores Plúmbeas

 

O beija-flor

Voava com um buquê

Quando foi abatido

Por um tiro na asa.

Eu acorri a ela

Com chocolates e poemas

E esbarrei num olhar frio,

Numa atitude indiferente.

Os chocolates derreteram,

Os poemas se desfizeram

Em minhas mãos.

Preferira um punhal no peito;

Ah, que inveja do beija-flor!


Marximizando

 

Sem propriedade privada

Não há escravidão.

Afinal,

O escravizado é uma propriedade

Privada

De Humanidade,

Utilizada na mais-valia

Da acumulação exorbitante.


Deus é um déspota absolutista.

O Diabo, 

Um underground conservador

Que inspira e não pratica

Para depois acusar.


Resta a Humanidade.


E os poetas.


Entre a televisão e o eito:

Senzala ô, senzala.

Favela ê, favela.


"Liberdade, Liberdade..."


quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Mais uma sobre a Relatividade

 

Presente e Futuro

Se confundem

A cada milésimo de segundo.

O Passado é cumulativo.

Dele, nada decresce

E, mesmo dando tudo ao Presente

Para se projetar no Futuro,

Acumula ainda mais,

Engloba, alimentando-se

Das arestas surgidas

Da tensão

Presente-Futuro.


Da Relatividade

 

Um milésimo de segundo

Antes da tragédia

Tudo ainda tem volta.

O pensamento e o primeiro gesto

São atos-reflexos.

É depois,

Quando só há o remorso,

O "devia ter..."

Que algo já está partido,

Que o tempo se esvai...

E, se volta,

Traz as cicatrizes,

As feridas latentes

De um perdão não ouvido.



terça-feira, 5 de outubro de 2021

Fúria e Sensibilidade

 

Sendo o prazer do artista

Criar

E sua necessidade

Expor,

A minha poesia

Tem uma veia estética

E cumpre um papel social

Que, por vezes,

Se chocam e se fundem.


ABsoneto/OBsoneto

 

Escrever... E pensar...

E ainda... Existir...

Aos diabos!

Quem poderia me exigir tanto?

Produzir arte

Em determinadas condições

É mais um aborto

Do que um parto.


Todas as Saudades

 

De tanto ser deixado

Para esquecer,

Às vezes,

Eu só quero esquecer.

Pois,

De tanto ser deixado

Para esquecer,

Também eu,

Aprendi a deixar;

Só não esqueço.


Momentos Se Vão

 

Viva o momento!

Posto que,

Nada dura para sempre,

Quando o momento se for,

Você terá

Algo bom para lembrar

Ou algo ruim

Para tentar esquecer.

Mas, o momento...

Nunca mais o momento.