I
Aqui jaz um espírito.
O corpo ainda vive.
O pulso pulsa.
II
A dor íntima necessitava
Desta tortura externa...
III
Passei da infância à senectude
Sem jamais viver o presente
E o tempo não soube me enumerar.
IV
Por ser poeta, perdi o presente
Ansiando o futuro.
Quando percebi que já havia acontecido,
Estava morto e sem memória:
Um gigante irrevolto!...
V
E não consegui juntar os cacos
Das muitas coisas que quebrei.
VI
Tenho, sim, uma das mãos mirrada.
Opero neste mundo
Apenas com a mão que destrói
E não sinto mais nada
Das inúmeras coisas que fui.
VII
Porém, mesmo vestido
De forma imprópria
E não subtraindo bens materiais
Dos ajuntadores de tesouros,
Trago sempre comigo algo de que
Alguém vitalmente necessita.
VIII
Esta é a imagem do poeta:
O Cristo arrastando a cruz do mundo
Sobre seus ombros
Quando Este se cansar
E fizer com que cada um
Carregue o peso de sua alma.
IX
Não se cantam réquiens
Nem se poetizam as epopeias
Deste que, em vida,
Tão pouco viveu.
X
Era um magnífico enterro.
E eu ali, no caixão,
Ao centro de tudo,
Apenas resumido à minha mediocridade.
XI
Mas não estou aqui para te ferir;
Só não abaixe o escudo