sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Respostas Rápidas
Eu já diagnostiquei
O mal que me aflige
E já estou ministrando a cura.
É o mundo adulto:
Vidas que se partem
E se reconstituem,
Por natureza inquebrantável.
A gênese de Beethoven e Tiririca
no princípio era o VERBO
e o VERBO fez-se MÚSICA
e executou-se entre NÓS.
Baú das Convenções
Tédio!
É a canção que me vem à alma
- Solidão e castigo -
As cinzas do momento de uma saudade,
O medo dos dias que se seguem,
A perseguição do personagem interior
- Preso e revolto -
Na inépcia moral do seu ser:
Culpa por viver,
Vergonha do amor,
Asco e ódio a tudo
Que de gratuito a vida oferta
( ou supõe-se que ofertou! )
Fora isto, a certeza do erro
Que se repete a cada ato
E um homem fugindo de si mesmo!
A maleta
Dólares, Dolores, dê cá.
Dólares, Dolores.
Dolor.
De lá, de cá
Dos lares, dos labores
Dolores, dolor:
Despencam as bolsas
Devassam os bolsos
Dólares, Dolores
Devolva lá, dê cá.
Um mundo perfeito... destruido!
Se a verdade
Está nas mãos dos que mentem;
Se os que mentem
Detém o poder;
Se a maioria
Não sabe que tem a força...
E os fortes são tão dispersos
Que vão se tornando
Cada vez mais fracos...
NADA,
Nem temperança, nem fanatismo,
Nos remeterá
A um novo mundo.
Caçada na terra aos homens de fé e boa vontade
Pernas ágeis que perseguem,
Chutam, esmagam;
Braços fortes que socam,
Sufocam e trucidam;
Olhos atentos que identificam
E cegam à verdade;
Ouvidos sensíveis que espreitam
E ensurdecem à razão;
Faros finos que sentem
O suor de labuta e fuga;
Bocas estridentes que acusam
E calam à poesia;
Cérebros brilhantes que memorizam
E maquinam os crimes mais hediondos,
Acudidos pelos corações de ouro
- Que não batem -
À tocaia das personagens-vítimas:
Todos os sentidos
Da personificação humana
Na divina tragédia!
Pena Atômica
Pena atômica!
Atômica pena!
Verbo conjugado,
Ó conjugador dos verbos!
Atomicista da poesia!
Mente criadora dos verbos!
Que faz com a pena
Esta mão trêmula,
Esta alma fugidia?
Dá-me a aula:
Conjugar pela pena
O olhar vazio e distante.
É ele que vê o tudo
Enquanto tu olhas o caos.
Kaos - a criação do cosmos:
Meteste a tua mão atrevida
Na caixa dos milagres
E roubaste a fartura das palavras.
Por isso, estas expressões
Imprevistas e inconcebíveis.
Duas estrelas não são tuas
E é justamente delas
Que tu falas.
Ah homem vulgar e achamboado,
Tu miras o céu e vês abismos;
Pisas o chão e vês espaços,
E nós, que te perseguimos,
Nos sentimos microscópicos!
Será este o teu gládio?
Este poder de palavra?
Atômica pena!
Pena atômica!
Mil kilotons da palavra
Dita e pensada:
Ultra - Super - Supra - Mega!
E escreve impiedosa
A pena agonizante do universo,
Que era humano
E foi divinizado.
Outras Páginas
Eu sou um livro aberto.
Não saberia guardar
Um terrível segredo
Por muito tempo.
Ainda bem que não cometi
Nenhum crime.
Ah sim, eu disse adeus!
Mas todo mundo,
Algum dia, vai embora.
Eu fui perder a ilusão
De um sonho
Que não me deixava viver
E, logo que
Encontrar o caminho de volta,
Logo que me encontrar,
Me trago para casa.
Por certo,
Com muitas páginas a mais.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Transmutação
Sinto-me como uma cobra
Trocando de pele.
E não é só isto:
Há uma revolução em curso;
Dentro de mim algumas lembranças
Me vêm claras, nítidas
Como uma saudade reciclável,
Sem que eu vislumbre a transformação.
Ocorrerá uma mudança.
Eu serpenteio em círculo
E calculo o bote
Com o fim de canalizar esta energia
Em proveito próprio.
Não tenho veneno,
Observo tudo sem paixão.
Logo findou o tempo da espera;
Logo é o tempo
Em que este velho ofídio
Ganhará asas e peçonha.
Ouça os meus guizos
E fuja!
Rapsodo do Século XXX
Agora que já não sou tão moço,
Deixo ao tempo
A árdua tarefa de enumerar-me;
Fica à estrada
A difícil missão
De seguir meu itinerário;
Herda o vento
A impossibilidade de apagar-me;
E ao amor
A nula perspectiva
De seduzir-me,
A mim,
Nem moço nem velho,
Só poeta.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Numa manhã de novembro
O céu,
De onde brotam as nuvens
Numa alvorada primaveril:
Este - azul celeste;
Estas - brancas do algodão
Do qual constituem-se
As asas dos Querubins.
Um pouco de sol
Para reavivar e reverdecer
A planície
N`onde respiramos amenidades.
Que bons ventos
Trazem-me essas doces lembranças?
Ventos não - novos tempos!
Lembranças não - essa canção:
"O amor virá a seu turno!"
O Monstro e o Ego
Não sei quem sou!
Eu não sou o Pantanal
- Este maldito poeta-morto -
Que apoderou-se da minha alma,
Da minha mente e, consequentemente,
Do meu corpo.
Às vezes, culpo-o pela minha omissão,
Enquanto ele condena-me por seus crimes poéticos.
Ele é o que sangrou
Em meio às enormes árvores metálicas
Com galhos de plástico, flores e folhas de papel
E com seus frutos enlatados;
Ele é o que sangrou
Em frente às casas onde se ajuntam
Os tesouros da humanidade,
Onde as pessoas respiram ouro
E transpiram pedras preciosas e cédulas verdes,
E percebeu o quanto seus sonhos são descartáveis!
Ele é aquele que ganhou um milhão
Para gastar em um semana,
Comprou um punhado de falsos amigos
E, sentindo tédio, ao terceiro dia,
Chutou tudo para o ar.
Outro dia foi visto, bêbado,
Deitado no chão de uma calçada,
Pensando poesias...
( Na mesma calçada por onde circulam os homens
Que sonham, um dia, concentrar em suas mãos,
Todas as riquezas do mundo )...
Ao levantar-se, não sabia mais quem era
E apossou-se do meu ser.
um cristo meramente humano
Ao primeiro despertar
Queria um beijo;
Num segundo momento,
Era outro desejo.
Do relógio do tempo
Só o passar era importante;
Veio um velho impulso,
Uma paixão por diamantes.
Estava sempre ali, sentado,
A relembrar velhas sensações,
À sombra de um tempo passado,
Remexendo um baú de frustrações.
Naquele jovem coração,
Por mais ilusão que careça,
Não cabia mais paixão:
- "Tragam-me cabeças!"
Por fim, a alma cansou
De um mundo sobre seus ombros
E, no último esboço de moribundo,
Transformou em solidez os escombros.
Sem ele, era só um mundo,
Uma insignificante raça!
E que triste ruína,
Meu Deus, que desgraça!
Fugindo ao Desejo
Quando o desejo bate à minha porta,
Finjo estar dormindo e não me levanto.
Ora, desejo insolente!
- Nestes dias em que estou dormindo de meias -
Ora, volte amanhã,
Se ainda houver chama!
Hoje estou pensando na solidão de outros dias,
Com saudades do que nunca existiu,
Sonhando com o que pode
Mas não existirá porque,
Quando o desejo bate à minha porta,
Eu me escondo no banheiro.
Ora, desejo atrevido,
Volte depois de amanhã!
Eu ainda estarei aqui,
Ainda te desejando
E quem sabe...
Esquisito
Tive, sim, um amigo imaginário.
E mais que isso:
Um universo, girando,
Não em torno do meu umbigo,
Mas englobando este universo
Que vocês conhecem,
Posto que o meu era mais real.
Dado o meu enorme agoísmo,
Afastei-me do meu mundo particular
E o meu amigo foi embora.
Agora, gasto meu tempo comigo mesmo:
Converso, conto estórias, dou risadas...
É como se eu fosse dois:
Um que fala sobre mim,
Outro que tenta entender;
Um é crítico,
O outro é analista;
E ninguém em mim
Sabe exatamente quem sou!
prato raso
Se há uma coisa da qual
Eu tenho certeza nesta vida
É que sinto fome.
Sinto fome fisiológica,
Fome de amor!
Sinto fome de sonhar,
Fome moral!
Sinto fome de saber,
Fome de viver!
Eu sinto fome
Pelo menos três vezes ao dia.
Se eu não sentir fome não trabalho,
Não sonho!
Se eu não sentir fome não amo,
Não penso!
Se eu não sentir fome não escrevo,
Não vivo!
Eu sinto todas as fomes do mundo
E procuro saciá-las!
Ferocidade
As pedras
Que encontro pelo caminho,
Quando não tropeço,
As chuto
Ou as apanho
Para atirar de volta em alguém.
Ah, passarinho,
Se soubesse da magia do teu canto
Jamais atentaria contra ti.
Entretanto,
Num espasmo fisiológico
De maior intensidade,
Também a minha fome
Tornou-se assassina e canibal,
Então, meus sentidos e estômago
Apeteceram
Do teu encanto.
Decreto Libertário
Eu vou proibir o sonho:
O sonho é mentiroso
Quer se tornar realidade
Inflama os sentimentos
O sonho é uma coisa perigosa.
Eu vou proibir o amor:
O amor tudo compreende
O amor tudo suporta
O amor tudo perdoa
Todos querem o amor
E eu sou muito ciumento.
Eu vou proibir outras instituições:
O beijo, o carinho, a amizade
O respeito, a maternidade.
Eu vou proibir que as pessoas
Sejam elas mesmas...
Eu vou proibir o pensamento:
Será considerado vadiagem
E a vadiagem já está proibida.
Eu vou proibir o aperto de mãos:
Só será permitido aos generais
Que estiverem em campanha.
Eu vou proibir tudo que ainda não o foi;
Por fim, só será permitido viver, e só!
E, para que não me ressinta
Das muitas proibições e poucas concessões,
Eu vou permitir que se matem uns aos outros.
Sala dos Espelhos
Quem sabe de ti é teu espelho,
A quem confessas medos e ilusões,
E de voz,
Apenas repete as mentiras que tu sonhas.
A mim mesmo,
Nunca encontrei-me frente a frente;
O que de mim está no espelho
Habita uma dimensão de sombras
E reflete-me imagem inversa.
Não quero te enganar,
Nem vou dar conselhos.
De mim, pergunto ao espelho:
Quem sou?
E diz-me que sou aquele
Da outra dimensão
Tentando viver a vida dele.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Espada
Revolta, como terrorismo, não tem rosto
Ela nasce no silêncio agosto
Dos becos escuros
Filha da marginalidade
Rebenta dos partos mais obscuros
De fúria fria e animalidade.
Nós, os sediciosos, vivemos atolados na lama
Enquanto idealizamos a trama
Em grita surda
Como Chico Science no mangue envenenado
De uma sanha absurda
Como Ktarse - periférico indignado.
Eles, senhores e servos, tão cientes da verdade
Tão distantes da realidade
Dormem sem ouvir a nossa voz
Acordam numa letargia aturdida
Sem esperar nossa vingança atroz
Sem notar o nosso dedo em suas feridas.
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