terça-feira, 22 de setembro de 2015
Entre um tiro e outro, um poema
Nas trincheiras também há dias de paz!
Sem segurança alimentar
E habitacional para escrever.
Preciso de um pouco de paz,
Solidão e silêncio.
Barricadas caem...
Sempre escrevo de trincheiras,
Sob ataque:
Os ossos expostos na fratura,
O sangue ainda jorrando
Das feridas que não saram...
Sem trégua para passar a limpo.
Nas trincheiras também há dias de paz?
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Sarau Sangrento
As notícias que espero
Não vêm pelos jornais.
Me dê notícias deste tempo
Sem Auchwits nem poesia,
Com um campo de extermínio
Em cada casa, em cada esquina;
Tempo em que poetas
Não mais são mortos
Porque vendem
E o saber reside em palácios
Com portarias eletrônicas
E guardas armados
- A maioria ignorante -
Protegendo o privilégio de uma minoria
Ou aceite que tempo é tempo
E há tempo
Para os que não têm tempo,
E se exaurem
Enquanto destilo meu tempo
Pacientemente;
E eu te falarei do que não sei,
Do amor que nem existe,
Das flores que não colhi,
Do que não tenho,
Do meu pensar em nada
Com uma autoridade
Que não conseguiria explicar,
Com uma gravidade sem importância
Para o que é menos grave
E tão importante.
alma de poliuretano
Enchi os pulmões de ar,
Soprei em todas as direções
Amores tóxicos,
Dióxidos de sonhos
E outras maldades de alma.
Sinto-me verdadeiramente peçonhento.
Hoje sim,
Se eu tivesse uma bomba!...
Monotema
"Diabólico" mesmo é matar no jovem
O seu amor pela vida,
Pela liberdade;
A sua vontade de mudar,
De transgredir;
A sua rebeldia enquanto tem sonhos,
E forças;
Acalmar seu ímpeto,
Sua impulsividade;
Anular sua curiosidade pelo novo,
Seu asco pela monotonia,
Sua adequação ao acaso.
Precisamos dos jovens vivos
Ou morreremos de monotemia:
A monotonia monotemática!
engula os soluços!
o choro é livre
pela simples razão
de não ajudar em nada
em pouco tempo
embaça a visão
embota o pensamento
confunde sentidos e sentimentos
e nada se resolve
Uma pedra...
Era uma vez Drummond, poeta,
E pichou na vida de muita gente,
Aí, morreu,
Ganhou reedições póstumas,
Virou cédula,
Estátua,
Livros didáticos ideológicos...
Que desgraça... quanta hipocrisia!
E agora, Drummond?
Era isto que você tanto procurava?
Ah, Drummond,
Os poetas também se vendem!
sábado, 5 de setembro de 2015
pandemônio
Como, o que é normal
Na vida de qualquer pessoa
Torna-se um escarcéu
Em minha vida
E abala a minha filosofia,
A minha ciência, a minha arte,
E nada se resolve!?
manhã de circo
Contemplei a imagem absurda
Do louco poeta
Arrastando um machado,
Com seu sorriso sinistro.
- "Ah, o machado?
Eu quero rachar as cabeças dos meus
E enfiar um pouco
De todas as belezas conhecidas,
De todos os sonhos mais tolos,
E música, toda música.
Ah, abrir cabeças!
Matar, sim,
Mas para que vivam!"
Fábulas reescritas
No silêncio do meu quarto - escrever.
Ler um livro louco,
Matar pernilongos enquanto sonho.
Um anjo-menino veio me despertar
De um torpor azul.
A minha juventude envelheceu comigo,
Fez-se eterna,
Infinita,
E seu tempo chegou novamente.
O relógio que eu tinha - passou -
Virou sol
E cada hora
É inédita e renovada;
O cansaço dos outros se esqueceu de mim
E eu sou só eu:
Fora do tempo, do espaço;
Sou tudo que há em mim,
Buscando outra embriaguez,
Um cigarro - princípio-ativo de morte -
E um caderno, como redenção.
Ela no jardim
Tinha que fechar os olhos,
Eu quis ver;
Era se deixar levar...
Talvez eu tenha estragado a magia.
Voltar atrás pé ante pé.
Mas já passou.
Deixar o tempo pintar seus quadros.
Traz a tua solidão:
Algo para dividir comigo!
Quando não puder mais ver,
Abrir os olhos
Onde os cegos não tropeçam,
Mas doam esmolas e bengalas,
Sem ver a quem.
Setembro
Tem sol lá fora,
O céu tão claro!
Amar contigo é algo bom!
Ainda hoje,
As manhãs têm mais brilho,
As estações são suaves, sutis:
Basta invocar a tua lembrança.
Última canção da estrada
Já estava tudo acabado
quando você veio me falar
de coisas que não entendo...
e nem precisava...
bastava você ir embora...
e você se foi.
Depois daquela festa,
passaram a indagar
se eu estava fora de mim...
e eu havia saído um pouco,
não pude mais dividir-me contigo:
era isto ou pertencer a ti...
e era preciso ser meu
A tese do barro
Ainda bem que não estagnei!
E, de cada lugar onde estive,
Trouxe um naco de terra nova
E, todos estes pedaços
Formam
O Todo em Mim.
A maioria é o inferno
Eles já me proibiram de pensar.
Me prenderam numa teia do impossível
Onde toda a realidade é horrível,
De onde ninguém poderia escapar.
Eles já me proibiram de sair,
Me proibiram de olhar pela janela:
"Se a liberdade é assim tão bela
Por que não o vem assistir?"
Eles já me proibiram de sonhar
Alegando que as crianças crescem em paz
E que tantas desgraças traz
As Histórias que tenho para contar.
Eles já me proibiram de amar!
Foi então que eu fugi e combati!
Não sei se o inferno é aqui,
Mas é inferno querer me limitar!
O Escrivinhador Maluco
Senhor Escrivinhador, senhor escrevinhador,
Foi você que criou este abismo de niilismo?
Como pôde ser tão envenenador?
Senhor Contador de Histórias,
Você disse a verdade
Quando se declarou hipócrita?
Eu vejo você andando a esmo
Com estes cadernos nas mãos.
Você cometeu o crime santo
E condenou a si mesmo?
Senhor Corruptor de sonhos,
Foi você que ensinou a acreditar
E transformou o futuro num lugar medonho?
Senhor Enganador de crianças,
Foi a poesia em sua lira
Que mudou em morte a esperança?
Eu vejo você sonhando ciências
Que trarão a felicidade para todos.
Será isto outra mentira?
Como é fácil lesar uma raça de tolos!
Mas, eu estou apenas perguntando.
Era seu o poder de escrever.
por que não acabou quando estava acabando?
Bem, eu nem sei se quero saber!
deixa acontecer
Um torce por um afago,
O outro quer o diálogo.
Digo que te quero sim
E você se perde de mim
Como se não quisesse nada.
Um novo amor te pegou, e ficou afim
Deste outro desejo e do estopim
E fumou tudo numa só tragada.
Mas, sempre estamos indo embora.
Deixa a porta entreaberta, por hora
Depois cerra, e joga a chave fora!
Acho que cansamos desta estória.
Periferia - Cidade e Selva
No gueto,
A realidade é cinza...
E turva...
Os olhos e o espírito.
Quer conhecer?
Está convidadx,
Ou melhor,
Desafiadx.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
UNIDADE
Aos manos Júnior, Rafael, Rattü
e à mana Dara Santos.
Às vezes caio, indiscutivelmente!
Mas a minha fortaleza prevalece:
Monstruosa, imponente, inexpugnável!
Às vezes a minha armadura se esfacela!
E eu, saído dela,
Sou o mais titânico
E incólume dos guerreiros!
Às vezes tudo rui,
E eu desmorono junto!
Mas os aliados
Me recolocam de volta
À luta!
É que nunca luto sozinho:
Tenho a meu favor
As fortalezas, as armaduras e o apoio
Dos que se entrincheiram comigo,
Dos creem no que creio,
Dos que caem e sou barricada
E nos ajudamos a continuar!
e à mana Dara Santos.
Às vezes caio, indiscutivelmente!
Mas a minha fortaleza prevalece:
Monstruosa, imponente, inexpugnável!
Às vezes a minha armadura se esfacela!
E eu, saído dela,
Sou o mais titânico
E incólume dos guerreiros!
Às vezes tudo rui,
E eu desmorono junto!
Mas os aliados
Me recolocam de volta
À luta!
É que nunca luto sozinho:
Tenho a meu favor
As fortalezas, as armaduras e o apoio
Dos que se entrincheiram comigo,
Dos creem no que creio,
Dos que caem e sou barricada
E nos ajudamos a continuar!
DESCONCERTO
Enquanto estive fora
Houve um outono no meu quintal.
Nunca torci tanto pelo fim de um verão.
Outono...
- o dia escurece mais cedo -
Como um dia
Ela foi em mim.
Suicidar...
- labor solitário -
Viver por nada
Morrer por ninguém
Será este um fim?
Vim falar de amor
Mas ela deve ter
Coisa mais importante a ouvir.
Não me ama? - perguntei-me.
Não, nem deve ser isso...
vivos-mortos
Os mortos
Gozam
A liberdade de não-ser.
Os vivos
Sofrem
De solidão,
Mas são recompensados
Pelo esquecimento.
Quando perdemos
Alguém ainda vivo,
Nem liberdade,
Nem esquecimento;
Só solidão,
Só sofrimento.
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