Pierrot

Pierrot
la tristesse

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A paciência dos santos


A primeira pedra
Ele aguentou sem gemer;
Nem um gemido sequer.
À primeira vez
A maioria faz assim ( ou age assim)...
Não entendo!
Na segunda,
Bem, era jovem demais.
Outras viriam, teria tempo:
Começava a despontar
O defeito do conformismo.
A terceira,
Essa também passou.
Estava planejando defender-se...
Da quarta em diante,
Veio o desejo de vingança.
A partir de então,
Sempre que era atingido
Olhava o céu perguntando
Que nova violência era aquela.
E, sem cansar de perdoar e esquecer,
Tombou sem vida.

_________________________________
Martírio de Estêvão ante Saulo de Tarso.

Jardins de Narcisos


Ampla vista de outros horizontes
Nas sombras dentro de mim,
Um minuto a mais de escuridão,
Turvo o coração,
A sonhar venturas distantes,
Ilusão e pó.
A estrada desenhada com um dedo
Na areia de uma ampulheta
Cósmica e palpável.
E eu sem mim,
Sem tempo, sem ilusão, sem rumo.
E eu em mim,
O coração, um sonho:
Outros horizontes.

Disse as palavras que fui dizer
E parti.
Ouvi me chamarem: houve resposta.
Já não quis saber.
Toda uma eternidade de guerras
Quando falavam de paz...
E o sangue na garganta
Comoveu minhas mãos,
Moveu-me ao assassínio.
O arrependimento não conserta
O que o sangue-frio calcula em silêncio.
O remorso chega um pouco depois,
Já morta a vítima, justiçado o algoz,
E o morto de pé,
Com a adaga em punho.

Os velhos tempos esperam nos jardins
Mas nunca entram, nunca mais.
Eu até consigo redesenhar teu sorriso
Enquanto te sinto me olhando,
Com as mãos pálidas e frias,
E te abraço a sombra vaga,
Lembrança da paixão febril
Do amor primeiro,
Um hálito quente, tão perto,
E amamos como amávamos
Na meninice das nossas fantasias...
Mas o tempo,
Senhor das saudades,
Recupera seu tecido,
Refaz sua mocidade,
Deixando o que é velho,
O que é passado
Só com as memórias,
E temos, novamente,
Os jardins vazios, em flor.



Mudou minha melodia


Não me chame
Você sabe o que fazer
Você brincou com tudo o que havia
Tudo está voltando para você.
As coisas são
Como você desejou que fossem.

Não me espere
Eu não voltarei pela sua beleza
Olhos como os seus
Carícias como as suas
Podem ser esquecidas;
Tudo é como você deixou que fosse.

Nada deu certo
Não podemos viver a ilusão
De um sonho que se perdeu
Eu quase me lembro do seu rosto
E do éramos nós
Resto apenas eu.
As coisas são como nós somos.

Pássaro sem asas


É preciso um espelho
Para dizer quem sou,
Para me reafirmar.
Mas não preciso de muros
Para sentir-me preso...
E as grades
Só impedem a entrada.
De repente, a vida
Sempre foi esta prisão
- Eu-prisioneiro -
Das grades para fora.

poetas-mortos


Alimentar os mortos.
Depois que o sol se escondeu
Para não testemunhar
O que não queremos ver.
O que queremos ser
Os mortos o são.
E nós a contar as suas façanhas,
Ideias...
Os mortos são só
O que vivemos por eles.
Nós, mortos,
Sem quem viva por nós.
O que os mortos querem
Nós o somos.
Aqui os mortos nos enterram.
Depois que o sol reaparece
Nos flagra saudosos
Do que não vivemos,
Nós, ainda vivos,
Alimentando os mortos
Quando deveríamos sepultá-los
Ou simplesmente deixá-los para trás.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Esperando por ela


Foi retirada dos meus ombros
Uma cruz pesadíssima
Que não redimia os meus pecados
E sim, me trazia
A culpa e os medos de um facínora.
Isto me veio como um perdão:
Eu quero viver mais!
Eu estive acorrentado ali,
Por algum tempo,
Experimentando particular amargura
E dizendo não querer mais...
Mas tudo volta
E eu estou sempre aqui.



Sem Bandeiras


Ouça o silêncio!
É quando o ódio toma forma.
Mentes macabras planejam o caos
Enquanto parecemos dormitar.
Eu queria trabalho,
Sem ajuntar tesouros,
Para não provocar ganância e conflitos.
Agora, a minha tropa está encurralada.
Não sabemos pedir ou conceder perdão.
Esqueçam suas vidas, ideais, filhos,
Esposas, pais e namoradas:
Não vale a pena voltar para casa!
E nem queremos vingança;
Ninguém precisa pagar por isto.

Deuses de barro, Homens de ferro*


O que acontece hoje
Já não sei dizer.
É o tempo passando,
A história criando mitos:
- Quantos mártires farão de mim!?

As religiões endeusam
Os homens, absolvem almas
Enquanto a tecnologia avança
Trazendo a ganância e a descrença:
- Quantos santos farão de mim!?

____________________________

*Inspirado em: Homem Boi Berro,
de Chico Miguel e Odorico Carvalho.

Cavalo



E quando à noite
Vier aquele fantasma macilento
A atormentar-me o silêncio claustral
Dir-lhe-ei:
Deixa-me,
Não sou mais
Aquela estranha criatura
A quem chamavas EU.

Transgressão




Eu me senti um estranho naquele quarto.
E logo que aquela mulher se foi,
Me joguei a um dos cantos, desesperado,
Para não encarar o espelho.
Foi a primeira vez que senti asco
Da geografia do corpo feminino...
E me veio do âmago
Uma repugnância de engrossar a saliva.
O meu corpo, nua e cruamente ridículo,
Tiritava envenenado e inerme,
Olhando o quarto, agora vazio,
Pedindo perdão por transformar amor em devassidão...
E esqueci, por algumas horas,
Que estaria apenas fazendo sexo.

Revés


Quando fazemos
O que queremos aos outros
Eles fazem conosco
O que não queremos.
Eu a amei e a decepcionei.
Algum dia,
Quando o pranto secar,
Quando o remorso se for
E a lembrança me trouxer
A nobreza das lições apreendidas,
Terei lhes contado
O que ela fez comigo.

Busca


Ah, quantas vezes fixei o olhar
Endereçado ao vazio
Para encontrar o tudo
E nada veio me socorrer!

Ah, quantas vezes movi o olhar
Endereçado ao tudo
E encontrando apenas o vazio
O nada veio me socorrer!

Gritei tudo mudamente
Ouvi tudo surdamente
Sem entender:

O tudo era muito pouco.
Eu vi o nada
E o excedeu em quantidade.

Sem memória


Saudades?... Não.
Na infância
Vivia entretido com brinquedos...
E logo a abandonei para crescer.

Na adolescência
Entrei louco e saí drogado.

Na idade adulta estive bêbado
Durante treze anos
E não sinto falta disto.

...(silêncio)...

Ah! as pessoas?
Na vertigem e no medo
Que sempre sentia
Me escondia e me esquecia das pessoas.

O tempo de uma saudade


Eu estou mudando.
Mudando para melhor
E em velocidade contentadora.
Você e o resto do mundo
É que não concebem...

Tão distraído eu estava
Não percebi seu cinismo, e malícia,
Quando me convidando
Para caminhar no céu.

Giramos em descompasso tal
Que parecíamos dançar todos os estilos,
Abalando mundo em dentro,
Um sonho! e só nós dois o vivíamos...

Mas o seu cabelo cresceu.
O período de transformação cessou
E você não mudou em nada:
Tornou a ser o que era.

As fotos são descartáveis,
Não duram o bastante
Para que nasça o desejo de rever-se,
Nem a saudade é tanta:
Não durou o tempo de uma saudade;

Não era amor,
Nem era você:
Não há o que lembrar.


In-fólio


Quando eu morrer
(Sem ter publicado nenhum livro)
Será que puxarão o meu saco
Como fazem
Aos poetas-defuntos?
Ou finalmente
Me será permitido
Descansar dos mortos?


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Vivo de canalhices,
mas quando morrer,
não quero meu nome na boca da canalha.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mar de insânia


Psiu! cale a boca!
Estou tentando sofrer em paz
E você está me importunando.
Nas sextas-feiras, as paixões ficam mais fortes
E eu, mais louco.
Estou nadando num mar de insânia.

Foi crescendo dentro de mim.
Quando vi, era isto.
Ela mudou. Não é nem sombra
Da que eu amei.
Deveria ser fácil esquecer - mas não!
Estou cada vez mais...
Estou navegando num mar de insânia.

Com o sofrimento é assim:
- Dor, resignação, esquecimento e recompensa -
Passa a fazer parte da gente.
Chorar de amor não é sofrer.
Estou atravessando um mar de insânia.

Não esqueça de rezar,
Não pense que está tudo bem
Enquanto estou me transtornando.
A sanidade é um náufrago,
E o mar, pura insânia.


Convalescença


Penso que seja menos por mérito
Que pela misericordiosa providência
(E dou graças!)
Somente tenho dormido como justo
Sonos tranquilos e reparadores,
Povoados de sonhos possíveis.
Um deles mostra-me a proximidade
De um relacionamento sensato e prazeroso:
A bênção de um amor sereno.

indiferente


...Troca de fluídos corporais.
Foi sexo? foi amor? fuga?
Nem o sei!
Acho que foi meio maquinal.
Um golpe traiçoeiro
Desferido em ambas as direções.
Não faz diferença!
longe de mim tudo é permissível.
Até o amor.

Ilhas de solidão


Ela esteve aqui quando os aviões caíram,
Quando houve uma tempestade de raios,
Quando o sol se escondeu por um ano,
Exigindo que eu controlasse os elementos.

Ele esteve aqui quando o chão se abriu,
Quando não havia quem acreditasse,
Quem me estendesse a mão,
Com os braços cruzados
Querendo que eu dissesse palavras mágicas.

Os outros já haviam partido.
E enquanto o mundo ia ficando cada vez mais frio,
Quando a noite e a solidão me acalentavam,
Tu chegaste,
Com um olhar parado e ávido,
Com duas mil perguntas caladas,
E alguns desejos,
E te falei que também eu já não estava aqui:
Eu sou as cinzas deste lugar.


Entre Ela e Você


Invento ansiedades para te ver
E sinto saudades de propósito.
Estou com saudades dela agora.
Ontem já estava; hoje, ainda mais.
Vai aumentando a cada dia...
Eu não estou em paz,
Estou esperando a sua chegada.
Poderia te ligar, mas não.
Gostaria de dizer pessoalmente.
Sim. Assim é melhor... Mas não sei.
Às vezes é tão confuso!
Fico horas pensando em te dizer
O que se passa comigo
Quando estou pensando nela.
Mais confuso ainda é escrever:
As palavras veem facilmente,
Mas sempre troco os pronomes.
ELA... VOCÊ...
Eu amo tudo relativo a TI.

Os aneurismas


Olhando as velhas fotografias,
Parecia tão vivo
O que morreu em mim.
Eu ainda sou ele, morto ou vivo!
Ele está aqui de alguma forma:
O tempo o levou e o trouxe de volta.
O que o traz aqui?
Sou eu?
Quem de nós dois morreu, enfim?
E o que será doravante?
Parece que vai explodir!
Rasgar as fotos não muda nada.
Olhar as fotos pode ser loucura.
Quem de nós sobreviverá em mim?
Está doendo um pouco,
Me deixando confuso.
Às vezes é melhor esvaziar a mente.
Às vezes, a mente em branco
Pode fazer voltar o que ainda sou.
Por que ele vai e volta?
Deve está faltando alguma coisa nestes aneurismas!


poeta do silêncio



Eu me calo sim

Em aula de grego

Não gasto meu latim.

Quatro estações


"Para encontrar o Diabo
Não é preciso acordar de madrugada
Nem andar uma légua."
O abismo pode estar do outro lado da porta.
Às vezes, o precipício é a cama
Onde você dormiu um sono tão confortável
Na última noite,
E o Diabo é você mesmo.
Para quem assimilar isto,
O inferno pode ser
Apenas um verão mais quente no paraíso
Ou um inverno inclemente...
E ainda existem outras armadilhas.

Perto do fim


Sozinho no escuro do quarto,
O som tocando no rádio.
Ela não vem, eu sei!
E a inspiração?
Ela não vem, eu sei!
Toque outra canção.

Estou esperando por mim mesmo,
Estou considerando os meus erros.
Ela não vem, eu sei!
Só me resta lamentar.
"Ela já vem," a ilusão se refez:
"Sonhe que ela virá."

Estou planejando um futuro,
Sozinho, porém seguro.
Ela está em outra!
Outra canção?
Ela prefere qualquer outra coisa:
O nada ou a solidão!

Ela que se solte,
Eu rezo para que não volte.
Sei que cometerei outros erros.
Toque uma nova canção!
Se os caminhos são os mesmos
Já tenho outro coração!

Ela não virá,
Eu tenho outro coração.
Me deixe sonhar,
Toque outra canção.

Síntese


Eu não sei quem sou
Quantos sou
O que farei de mim
Ou que farão de mim
Em quantas partes me dividirei.
Seja lá como for
Eu sou a parte mais importante de mim
Eu sou o Todo
O Múltiplo do meu ser
Ou ainda
A Totalidade dos seres que me compõem.
Eu sou
(Deste que sou, disto que sei)
Ah, um pequeno universo!
Aquele que busca a si mesmo
Durará para sempre.
Existem tantas vidas reunidas em mim
Eu sou tantas coisas
Que não consigo me conter.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A Terceira Guerra



Esta geração chegou onde queria:
Fazer sexo, usar drogas,
Falar besteiras em programas de tv
E aparecer em comerciais de refrigerantes.

Talvez não sejamos culpados,
Mas, as nossas cumplicidade e omissão
Custarão os nossos sonhos de liberdade
E as nossas vidas.

Agora as armas se modernizaram:
Ontem eles atacaram
Com a cocaína e a internet,
Fazendo milhões de escravos...
E as estatísticas
Não sabem calcular os mortos!



Cadê?


Esteve aqui,
Ali no sofá, na cozinha,
Em toda parte.
Mexeu o pezinho ao meu blues,
Folheou meus livros,
Passeou pelas minhas canções e devaneios,
Contaminou minha poesia.
Como outro a levaria
Sem música nem dança,
Sem versos, sem rosas?

Autópsia




A alma pura havia se maculado
naquele corpo de aura funesta
e refletia, então, a própria flama
dos gênios da escuridão.
A matéria, inóspita até mesmo
para as bactérias da purificação,
tornou-se uma carne de odor insuportável.
O corpo daquele homem,
já em avançado estado de decomposição,
fora antes recusado pelos vermes
que agora o estavam comendo vivo.
Ah, hóspede dos azedumes dos jazigos!
- de vômitos e escarros nobres -
aonde está a riqueza do teu orgulho
que te condenou, eternamente,
a embrulhar os estômagos
dos herdeiros naturais da tua podridão?

Enquanto isso, nas grandes cidades...


Se inventaram algo melhor que a solidão,

traga para mim

e me deixe só!

Dia hoje de sempre: Dia das Mães


"Mãe é o nome de 'deus' nos lábios de uma criança."
Edgar Alan Poe

Eu queria que ela estivesse aqui; 
Que me pegasse no colo;
Que me fizesse cafuné;
Que me chamasse meu Zezinho;
Que me explicasse, novamente,
Todas as coisas,
Como se eu tivesse
Apenas quatro anos de idade.
Porque eu ando perdido
Qual criança
Precisando que alguém
Me segure pela mão.