Pierrot

Pierrot
la tristesse

domingo, 23 de março de 2014

VIRADA


Após o verão mais inclemente
A cidade voltou
À sua vocação primaz:
Gasosa, 
Melancólica.
Ou devo ser eu...
Eu ainda uso aquelas mesmas roupas,
Tenho aquele mesmo semblante
De quem morreu ontem.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Do egoísmo


O meu coração
É uma casa abandonada
De onde os ocupantes, 
Alegando frio,
Saíram praguejando
E lacraram a porta;
Nem eu consigo mais entrar!


quinta-feira, 20 de março de 2014

flores na despedida


Depois da tempestade,
Uma rosa solitária
Desabrochou no meu quintal.
Tão solitária como eu
- E bela! -
Viva, vivíssima,
No meu quintal inséptil
Ou no meu coração,
Tão murcho!
Nos olhamos através da vidraça,
Pétreos e levitantes, os dois.
No dia seguinte,
O meu quintal desértico
Estava salpicado de flores
E o meu coração triste, seco,
Quis reencontrar a alegria de viver.


domingo, 16 de março de 2014

A solidão da rua


A rua é a casa da multidão.
Porque será que quando estou na rua
Sinto solidão?

Descaminhos


Me olhou indiferente,
Encobriu os olhos com os braços.
Me deixou ir embora.
Foi isso.
Teve a sabedoria 
De me deixar partir
Quando eu já não cabia mais em mim.

domingo, 9 de março de 2014

Pacifismo Cínico



Eu sou um amante da paz
E não me sinto feliz em fazer a guerra,
Mas a guerra está aqui
E o momento exige que eu 
Lance mão da força e da fúria
Do animal em mim,
Que destrua esta paz massacrante,
Ou serei pulverizado.
Eu andei escrevendo poemas.
No entanto, até as crianças do outro lado
Portam fuzis e me apontam baionetas caladas
Com ódio nos gestos e nas palavras...
Na verdade, eu enviei versos;
Eles me devolveram pedradas.
Quero esmagá-los sob os rochedos da minha vingança:
Um Menino sem escola pôs  a espada em minhas mãos;
O Negro escravizado, o Índio dizimado;
O Homossexual morto a pancadas;
A Mulher que maria da penha não protege;
O sangue na periferia:
Munições e motivos suficientes para revidar.
Se eles o soubessem,
Se suicidariam antes que eu chegasse.

sábado, 8 de março de 2014

Esperança líquida

"...Sê bem-vinda, chuva.
...Lança gotas novas."

             Frederico Nietzsche


Chegaram, 
Enfim, 
As águas de março.
Ah, são Paulo,
Varre teus ares,
Desanuvia as mentes 
Destes debilóides!


quarta-feira, 5 de março de 2014

Crepúsculos


Um inteiro de mim,
Um fragmento de tudo.
E que se encontra átomo a átomo
E sempre que se conhece,
Muda,
E recomeça o autorreconhecimento.

Sei quem sou,
Mas já não sou.



Enlevo


Eu sou uma metade
completamente entregue
à metade de mim
que está em ti.


domingo, 2 de março de 2014

Desejo e Ausência


A tua boca explorando o meu corpo
E eu era outro...
Nunca estiveste aqui;
Só eu contigo.
Uma mentira.
Duas vidas que se esvaíam
Num abismo de solidão.