sexta-feira, 22 de abril de 2016
Formação Cidadã de Mortos-Vivos
Brasil, 29 de março de 2011.
Morre José de Alencar, empresário,
Vice-presidente da república desde 2003.
Numa das maiores faculdades de São Paulo,
A notícia é lida de relance,
Quase acidentalmente,
Durante uma aula-seminário.
Tentei comemorar,
Mas alguns colegas não entenderam.
Um apenas limitou-se a respeitar meu ponto de vista.
Mais nada se discutiu.
Nos bares, os bêbados o fizeram;
Nos jogos de futebol, nos presídios;
Nos happy-hours dos executivos,
Nos sindicatos, salões de cabeleireiras,
Nas praças, Igrejas;
Nos viadutos, onde a escória da sociedade
Se reúne para se entorpecer
Para não se ressocialixar;
Nos Quilombos, nos bordéis,
Nos pontos de táxi e tráfico
E nos batalhões de polícia.
Na Faculdade de Humanidades e Direito,
Ouviu-se apenas um veemente
Ordem de Silêncio
Vinda da Professora.
"Aprenda-se com este barulho!"
Benjamim Franklin, ou o mito da caverna de neon
Numa Era de escuridão,
Sempre que soava um trovão,
Dizia-se que deus estava martelando,
Sempre que caia um raio
Era um deus irado punindo a humanidade
E rezava-se, ajoelhado, para acalmá-lo.
Ben pôs-se de pé, curioso.
Engenhoso, soltou algumas pipas...
E zás! Temos eletricidade!
Com ela vieram o computador e a tv.
E nos pusemos diante do pc,
Olhando, por horas a fio, solitários,
Isolados do "mundo material",
E erigimos em nossas casas
Um altar à televisão
E a obedecemos cegamente.
Pobre Benjamin Franklin!
Compreendeu fenômenos e trouxe-os à luz.
Mas há mistérios incompreensíveis:
Quem crê na ignorância permanece na escuridão.
A Poesia Depois de Auschwitz
Quem perdeu a paz, me avise...
Talvez esteja comigo.
Não há problemas no futuro:
O beijo jogado, a brasa na pele
- gado marcado e conformado -
A televisão compra uns,
Outros pagam muito caro...
Não há poesia de chumbo!
A novela nos acalmou,
Os poetas trabalham para a mídia
E a mídia envenena o quanto vende;
A juventude aderiu à moda
E a moda é uma camisa de força...
Vestir é só por vestir,
Cortar o cabelo, e pintar,
Um colorido sem luz,
E as luzes cegam o quanto brilham;
A caverna cibernética é o refúgio da solidão.
Índios - computadores por apitos.
Negros - a cultura do cabelo liso.
Feiura ou beleza transformadas em plástico,
E o plástico degenera por dentro...
No íntimo...
Estamos cansados e só reagimos para não mudar
a ordem que traz o comodismo de paz.
A guerra venceu, finalmente!
E não fazer guerra nos mata, calados e quietos:
A paz nos venceu!... E agora?
Lobo-Brown
O menino rebelde,
Irônico, provocador:
- A juventude em si -
Ganhou dinheiro,
Ficou rico , enfim:
Babaquizou.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Suicidas
A tecnologia avança,
Mas algumas coisas permanecem:
O ser humano ainda é pedra
E o álcool
Como bálsamo e veneno
Para os que sonham um mundo melhor
E tentam resistir à barbárie.
Eu queria tocar fogo em tudo.
Não para me queimar,
Ou fugir.
Mas , para assistir a tudo crepitar e arder
Sob as chamas,
Apreciar o espetáculo,
Ainda que me queimasse,
E rir de Nero,
Aquele mentecapto de más concepções.
Dicionário de Gírias
Será que as pessoas entendem
Que nada é "tipo",
Que "tipo" é nada;
"tipo assim"?
“estoro”, “top”, “bbb”.
Artistas sem arte;
Barbas de anciões,
Mentalidades infantis imbecilizadas.
“deus é fiel.”
“tudo posso naquele...”
“jesus te ama” (eu tô fora!)
A igreja caiu na periferia brasileira
Como a bomba em Hiroshima.
“parça”, “mano”, “véi”, “meu”,
“Tamu junto”, “é nóis”.
Mas Hiroshima, Nagasaki e Fukushima
Já foram reconstruídas;
O brasil,
Está se tornando Chernobyl.
"suave".
“tendeu”.
“só agradece”.
“só agradece”.
Transvia
Ouvir a minha própria voz, sem paixão...
Estava juntando desejos,
Uma perspectiva vindoura,
Uma embriaguez para vomitar verdades
- Uma revolução que não revoluciona! -
Tudo permanece inalterado:
O jogo segue,
A terra gira,
O vento sibila...
Para o jacaré, também é um drama
Quando a lagoa transborda.
Estou pulando fora deste andor
Por saber que o santo
É um fardo pesado demais
E não obra milagres coisíssima nenhuma:
É apenas sacrifício sem recompensa.
Preciso errar mais
Para não tornar-me santo,
Amar mais para não tornar-me pedra!
Estou pulando fora do seu navio-negreiro
E não estou aceitando opiniões em contrário!
Ânima Mea
Cada parte do teu corpo
Me atrai e me excita!
Por que, então, nos prendermos
A acessórios,
Quando temos
O corpo, a mente
E os sentimentos:
A essência em todo o seu esplendor?
Exposição ao Tempo
A alguém que se expõe ao tempo,
Às vezes,
É preciso abrir portas e janelas
E deixar o vento entrar...
Ainda que,
Feito um tufão,
Ele varra a casa
E não deixe
Sonho sobre sonho...
Nem mesmo lembranças!
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Babilônia Revisitada
"Integrei-me àquela sociedade alcoólatra
porque era sediada na vizinhança daquela garota.
Por muitas vezes tentei desvencilhar-me de tudo,
porém, não havia antídoto..."
Havia sangue espalhado por toda a casa:
o vermelho dos incestos vorazes
e da antropofagia entre parentes.
Não conseguiam mais chorar.
largavam os seus dilemas fora da realidade
enquanto agarravam-se a um pouco de ópio.
As notícias iam chegando naquela casa,
porém todos pareciam viver em outro universo,
se é que aquilo era viver!
As noites naquele antro lúgubre
refletiam a própria sombra do inferno
e eles fugiam de si mesmos perambulando pelas tavernas.
Ah, que existência infame tinham aqueles seres!
Para eles, os dias simplesmente passavam
sem serem contados, por nunca trazerem novidades;
as expectativas de vida narravam os sonhos,
que eram mentirosos e sem sentido
e faziam do tempo uma sombria prisão.
Suas vidas acabaram bem antes da morte...
e eles a levaram apenas indagando
se ela, realmente, valia a pena ser vivida.
Depois que eles morreram,
alguém pôs fogo naquela casa,
para eliminar o seu odor putrefato...
O que foi inútil no tocante à sua presença,
pois parecem ainda dançar suas trágicas baladas,
praguejando contra os céus em seus cultos malditos.
No local, foi construída uma igreja gótica
onde, todas as semanas, acende-se uma vela para a divindade
e, no dia do sabá, celebra-se uma missa negra.
O mais jovem dentre eles
é visto entrando e saindo de lá,
uma vez que, em vida, tinha o dom de desaparecer;
ele mostrava-se alegre e infantil,
apesar de ser o maior morto-vivo daquela legião
e, talvez, somente agora tenha começado a viver.
Correm boatos de que certa feita confessou ter muito medo de si mesmo
e que, certo dia, batera a porta à cara de um homem
que falava de amor e carregava uma cruz.
por isso, murmura-se na vizinhança
que a casa 13 da rua Trinta e um
"é a casa onde não deixaram Jesus entrar."
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