Pierrot

Pierrot
la tristesse

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Babilônia Revisitada


"Integrei-me àquela sociedade alcoólatra
porque era sediada na vizinhança daquela garota.
Por muitas vezes tentei desvencilhar-me de tudo,
porém, não havia antídoto..."


Havia sangue espalhado por toda a casa:
o vermelho dos incestos vorazes
e da antropofagia entre parentes.
Não conseguiam mais chorar.
largavam os seus dilemas fora da realidade
enquanto agarravam-se a um pouco de ópio.
As notícias iam chegando naquela casa,
porém todos pareciam viver em outro universo,
se é que aquilo era viver!
As noites naquele antro lúgubre
refletiam a própria sombra do inferno
e eles fugiam de si mesmos perambulando pelas tavernas.
Ah, que existência infame tinham aqueles seres!
Para eles, os dias simplesmente passavam
sem serem contados, por nunca trazerem novidades;
as expectativas de vida narravam os sonhos,
que eram mentirosos e sem sentido
e faziam do tempo uma sombria prisão.
Suas vidas acabaram bem antes da morte...
e eles a levaram apenas indagando
se ela, realmente, valia a pena ser vivida.
Depois que eles morreram,
alguém pôs fogo naquela casa,
para eliminar o seu odor putrefato...
O que foi inútil no tocante à sua presença,
pois parecem ainda dançar suas trágicas baladas,
praguejando contra os céus em seus cultos malditos.
No local, foi construída uma igreja gótica
onde, todas as semanas, acende-se uma vela para a divindade
e, no dia do sabá, celebra-se uma missa negra.
O mais jovem dentre eles
é visto entrando e saindo de lá, 
uma vez que, em vida, tinha o dom de desaparecer;
ele mostrava-se alegre e infantil,
apesar de ser o maior morto-vivo daquela legião
e, talvez, somente agora tenha começado a viver.
Correm boatos de que certa feita confessou ter muito medo de si mesmo 
e que, certo dia, batera a porta à cara de um homem
que falava de amor e carregava uma cruz.
por isso, murmura-se na vizinhança
que a casa 13 da rua Trinta e um
"é a casa onde não deixaram Jesus entrar."

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