Pierrot

Pierrot
la tristesse

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

CHAMA INTERIOR


Eu sou apenas uma sombra do que fui.
Mas uma sombra consciente,
Uma sombra viva, uma sombra de mim mesmo.
Eu não sigo os passos de ninguém!
Eu não meço as palavras que digo,
Eu não me desvio dos meus medos,
Eu não me desculpo pelos meus erros:
Eu só me escondo de mim mesmo!
Eu não conheço nada além de mim,
A quem jamais encontrei.
O completo estranho que sou,
Hoje, falou-me um olá, timidamente.
Então, juntei tudo que fui
E as coisas que disseram de mim,
E o estranho que sou sorriu-me dizendo:
Eu sou apenas um lampejo do que você é.

A Evolução segundo Augusto dos Anjos



A minha pressa
É porque o mundo regride
E quero realizar algo
Antes de voltarmos a ser
Apenas vermes.

Jovens - inimigos do tempo


O passar nesta via

É tão veloz e

A minha vida, monôtona,

Que me deu inveja

Dos carros

Que nela circulam.

Efemeridade


O estar neste mundo

É tão vagaroso e

A minha juventude, célere,

Que me causa inveja

Das coisas

Que sabem ser efêmeras.

Da forma errada


...Ainda que ela queira
É insensato, é insano!
É a ferida que não fecha!
O livro que não termina!
A estrada que prossegue!
É a impossibilidade, é o inferno!
Tudo que posso ofertar
É companhia na longa jornada
E todas as alternativas do mundo,
Até nossos caminhos bifurcarem;
Ela prefere mais-do-mesmo.
Ela nem sondar
O que tenho a oferecer
É um obstáculo intransponível:
É a impossibilidade, é o inferno!
É o nada!

Sítio


Uma vida sem viver.

Os meus cadernos
Cheios de teorias falhas.
A crise ronda o meu quarto
Assim como um exército
Sitia civís indefesos
Em guerras nas quais
Homens brincam de soldados.

CERCA-VIVA




A paisagem:

De longe,
Uma parede verde;

de perto,
Uma pintura, um afresco.

A sensação:

Lá dentro,
Imensidão aberta;

Cá fora,
Um guardião alerta.

As crianças e os cães brincam no quintal do mundo.



O buraco da fechadura




Uma casa sempre vazia

A cortina cerrada

Escondendo o horror

Dos incestos infectantes e infecundos.

Sombras que transcendem a noite

Frio que perpassa o sol. E silêncio

O silêncio que traveste a culpa

E mata a pureza

Um vulto que espreita pela janela

Uma fresta de verdade lá fora

E esgueira-se avidamente para o interior

De onde a solidão

Conta-lhe qualquer anedota.


Passar do Tempo


Com o passar do tempo
A Verve passa a estar sempre presente
E adocica o ímpeto.
Na juventude, ela, rebelde também,
Vai embora, e ao voltar,
Traz febre com ferocidade
E o poeta, vomita males terríveis
Com a fúria que causa
Toda espécie de paixão na alma:
A revolta contra o belo
O amor pela treva sangrenta
A alma convulsa.
Mas, até isto o tempo cura:

É só passar!

A solidão que fica


Ela era uma parte de mim,
Até que se perdeu do meu ser.
Agora, a minha melhor metade
É a que ficou comigo
E se transformou num TODO,
Num múltiplo do que posso ser.
E, esta parte de mim
Também quer ir embora:
Ficar enquanto os outros partem
É a pior solidão!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Existencialismo retratado


ponha os móveis para fora.
deixe a sala vazia.
fique só o que realmente existe
e faça a fotografia.

deixe as cortinas cerradas.
foque apenas o que esta luz alcança,
que a pouca paisagem
faz realçar a lembrança.

esta jaqueta pendurada. enquadrou?
- um único clique -
e revelará quem sou.

Por timidez


Eu disse frases imprecisas...
Reticentes... e
Desviei o olhar
E assenti
Ao que ela propôs.
Tudo? Talvez.
Nada? Não sei.
Acho que não dissemos
O que havia
Para ser dito.
Restou a incerteza!
E nesta solidão a dois
Continuaremos a buscar
O que já está em nossas mãos.


Dia Decisivo


Hoje, por ser hoje,
É o dia mais importante da minha vida.
Seria amanhã, se amanhã fosse;
Seria ontem, se ontem fosse;
Ou anteontem, ou depois de amanhã...
Mas é hoje, porque hoje é hoje.
Eu devia ter pensado nisto
Naquele catastrófico dia
Em que tudo aconteceria
E não aconteceu.
Ah! mas hoje...

Ressocialização


A escuridão
Não me inspira mais.
Subexistem nela
Apenas as dores
Do passado que esqueci.
Já acendo as luzes,
Abro as janelas
E me junto às pessoas,
Plantando um pouco de vida.

O Velho Zé


Já fui criança:
sonhava noites inteiras
degustar delícias
no café da manhã.
Hoje, vago pela escuridão
e o meu paladar amargo,
muitas vezes,
nem aparece para as refeições.
Já fui normal também:
a tudo fui imprimindo
a minha personalidade
desprovida de máscaras
até que me tornei esta pessoa
a quem o mundo
estranha, detesta e combate.


Ópio do povo


A revolta popular
É uma turba de fanfarrões
Cuja maioria se dispersa
Ao primeiro minuto da hora da verdade.
Demais, espalham-se telões pelas ruas,
Exibindo novelas,
E restaura-se a ordem.
Horas depois,
Os últimos rumores são sufocados
Enquanto todos dormem serenamente
Um sono profundíssimo
E, sem saber porque
Ninguém quer saber o porquê.



A Nau do Capitão Calamidade


Com o vento dando na vela
Qualquer rato é navegador!
Segure o leme! Tempestade a estibordo!
Os ventos do norte
Choram as chagas de um mar ferido,
Lutando para nos lançar fora,
Como a um pus em suas entranhas!
Manobra evasiva a bombordo!
Navegar é preciso
E o naufrágio
Faz parte da navegação!
Sem o vento dando na vela
Nós somos os ratos desta embarcação!
Mas não solte o leme!
Se ele boiar, chegaremos à praia!


Duas eternidades


Já se passaram duas eternidades
Desde a última vez que a vi.
Todo este tempo pensando em você
Me fez concluir que a amo
E se você me pedir
Para esquecê-la
Será preciso voltar
No tempo da minha vida
Para tentar entender
Como cheguei até você;
E isto não tem explicação.
Eu não sou um viajante do tempo,
Eu não sou imortal
E preciso de você
Tão-logo a encontre.

Parênteses



Por convicção da tragédia
A sociedade
(soberana de todas as ditaduras,
mãe legítima dos filhos da marginalidade:
paralelo bastardo que nasce
do supremo desejo de vingança,
que trazem em suas armas-de-fogo
- porta-vozes dos que deveriam ser mudos -
não mais pedidos de pão e poesia
e sim, trovejados gritos de ódio!)
Agora condena seus próprios membros,
Forjando catastrófica defesa
De suas normas e preceitos amorais.

Charme


Atenda o telefone hoje.
Ouça e diga tudo
Que for necessário.
Eu quero te falar
Sobre todas as belezas conhecidas,
E que nenhuma delas
Supera a leveza
Dos teus gestos, Andrômeda.

                                             Anne Sophie Mutter

sábado, 1 de janeiro de 2011

Uma curta estória longa



Ainda dava tempo
Quando você pediu um momento
E eu fiquei contra o vento.


Agora você volta atrás
Dizendo querer paz.
É tarde! É tarde demais!


Como Raúl já dizia


O meu umbigo
Não é um universo.
É algo maior,
Na órbita do qual
Giram todas as galáxias
possíveis e impossíveis,
Imagináveis e inimagináveis.
E é desta grandeza,
assim posta,
Que tiro todas as minhas
Lições de humildade.

Caricatura


Criou-se assim uma paixão, um apetite,
Uma modalidade qualquer de paixão,
Uma espécie vulgar de amor;
Talvez, só uma fome,
Extravasamento, vontade de gritar:
- Um momento bom!
Só que chegou na hora errada!-
Não ria de mim
Pensando que sou
Qualquer coisa caricata ou absurda;
Considere antes,
Que estou apenas servindo-lhe como espelho;
E que não sou tão bom,
Mas sou a melhor coisa
Que alguém poderia ser para mim.

A religião dos homens


Eu quis mentir.
Você não quis.
Veja onde chegamos:
Um mundo falso.
E sabemos que desde o início
A mentira
Sempre foi a única verdade.
Hoje, fingimos tantos sonhos,
Criamos tantas realidades,
Que a única coisa concreta
É este altar
Onde depositamos as moedas.

Do you remember rock `n` roll radio


Música, por favor!
As pessoas ao meu redor
Fazem um burburinho horroríssono
Que tem me deixado louco.
Ouvir a minha própria voz,
Sempre reclamando,
Inventando desculpas
Para os meus erros
Automaticamente repetidos,
Também não suporto mais.
Tenho andado bastante confuso;
Acho que devo comprar um rádio.

Sem Você


A nós poetas
Foi dado viver de brisas.
Quem então, dentre nós,
Seria suficientemente estúpido
Para desejar vendavais?
É. Eu quis tempestades!
Depois de ter você
Fui procurar outros sonhos,
E assim, tive do que fugir
Durante uma vida inteira.
Não quero mais turbulências.
Gosto de você
E de ficar só...
E os sonhos
Que façam sobressaltos
A outros noturnos.

Amparo


A tua inocência guarda
para quando fizerem as acusações.
Por hora,
tente convencer a ti mesmo
de não ter feito o que fez.
Pode ter sido minha culpa:
uma vida inteira juntando esperanças.
Eu só preciso de alguém
que pague por isto.
Quanto aos guardiães da verdade,
nós devemos enganá-los,
e deixar o tempo passar
até que nos esqueçam;
da mesma forma
que esquecemos a nossa moral.
Por enquanto, guarda a tua inocência:
necessitaremos dela mais adiante.

O conto dos dentes perdidos


Entre o egoísmo
E a necessidade de auto-afirmação:
Conhecer a mim para me libertar de mim
- Transcender -
Eu a encontrei.
Um passa-tempo que em nada me ajudou.
Não sei dizer realmente
O quando de mim ficou ali,
Ou esteve ali.
De tudo que me foi dado viver
Só me falta ser homem,
Porque ainda sou pedra
- Frio, feio, bruto -
Ainda por lapidar.
Quando se caminha a esmo
Não importa a distância percorrida
E, sim, o tempo que se perde
Indo em frente e tornando atrás:
Um pecado - um crime cometido duas vezes.

Espero que ela entenda


Diga a ela que fui embora
E estarei de volta
Tão-logo o mundo acabe.
Ora! eu tenho outros compromissos
E não tem cabimento ficar parado
Esperando o fim do mundo.


Explique a ela que ligo depois
Ou que a procuro
Na próxima encarnação:
Esta existência é realmente longa
Para ficarmos juntos o tempo todo.


Mostre a ela como é grande o planeta
E quanta gente existe aqui...
Que preciso respirar ares mais puros
E mandarei um postal de Plutão.


Peça a ela para me esperar:
Depois que o mundo acabar,
Finalmente, estaremos a sós.

Eis o Homem


O velho homem que eu era
Morreu.
Matei-o da forma
Mais lenta e penosa
Possível.
O novo homem que sou
Também morrerá
Para que nasça outro
Mais novo e ainda
Melhor,
E que também morrerá,
Até chegar à essência
Mais pura
Do meu ser,
Para que eu me
Reconheça
E me negue
E transcenda.

Por mais confuso que seja,
Que eu me encontre sempre,
Ainda que à beira do abismo.