Hoje, o texto é de outra pessoa. Seu nome é Cristiane Gandolfi, minha professora da Pedagogia.
Ressuscita-me porque sou poeta e ansiava pelo futuro,
Ressuscita-me lutando contra as misérias do cotidiano,
Ressuscita-me para que a partir de hoje,
A partir de hoje, a família se transforme
E o pai seja no mínimo o universo
E a mãe seja no mínimo a terra…
Música indicada para ouvir enquanto se lê: O Amor, de Gal Costa
Menininha
Por Cristiane Gandolfi
É hora de votar,
O dia cinzento,
Chuvoso,
Sem bandeiras,
Cortando o ar,
Pede pelo dever cívico.
É hora de votar.
A caminho das urnas,
Já não vejo,
A alegria de tempos de outrora,
Quando papeizinhos
Enchiam as ruas,
Eram cédulas para todos os lados.
E o povo reclamava,
Daquela festa
Envolta a papéis, bandeiras, buzinas,
Disputando as almas dos indecisos.
Vermelho, amarelo, azul,
Esquentavam o dia chuvoso,
Era democracia,
Do diálogo, da conversa,
Do convencimento.
Havia até indefinições,
Eram tantas opções,
O vermelho da vida
Sempre alegrava
O dia.
Que saudades,
do quente daqueles dias,
Daquelas eleições,
Encobertas por disputas entre
A defesa do voto-cidadão e o ganhar o pão dos que compõem a exclusão.
Nesses vinte anos,
O processo se modernizou,
O voto é eletrônico,
O tapete de papeizinhos já não está por lá.
Aparentemente a modernidade avançou,
Pelo menos nos papéis.
Mas,
E a vida que precisa viver?
Que depende dos trocados,
do trabalho
De olhar um carro?
E a infância sem infância?
Estava lá, no caminho das urnas.
Modernamente ela se mantém.
Presidenta,
Senadoras,
Deputadas,
Governador,
E a menininha,
Titico de gente,
Olhando carros,
Sorrindo,
De olhos grandes,
Cabelinho elétrico,
Amarradinho com finos elásticos,
Que aprisionam o vôo das infâncias.
Nesse caminho tão apático,
A menininha é o acontecimento,
Ela nos chama para o debate.
Uma moça pergunta,
Por que você está aqui?
Vá para casa brincar de boneca.
E, a menininha, olha sem entender.
O que ela quer dizer?
É aqui que brinco,
Entre minha turma,
Meninos de sete a doze anos,
Que também estão ali,
Participando das eleições.
Ganhando trocados,
Orientando a entrada e saída de carros,
Sinalizando,
Nesse não caminho do diálogo.
Carros estacionados,
Vidas a espera,
Processos lentos,
Marcam nossas eleições.
Arbusto sobre arbusto,
Exclusão na exclusão,
E a menininha,
Trabalha no dia da eleição.
Pedacinho de gente,
Não sabe se quer,
Que esse é o dia escolhido pela nossa civilização,
Para modernizar a vida,
Garantir casa, infância, trabalho, comida,
Festa para toda a nação.
E ela, está ali, inteirinha,
Com seu corpinho magrelinho,
A menininha de 4 ou 6 anos
já segura a vida,
a não cidadania
está em suas mãos.
Fernando Pessoa nos chama com É a Hora. A Hora de ”escolher uma candidata que pensa, projeta políticas para os que tem menos, é a Hora de se tornar mais humano na vida. Ser generoso é aprofundar sua humanidade, é preciso enxergar nas urnas a infância sem infância de nosso país. Criar é votar em candidatos comprometidos verdadeiramente com os “de baixo”. Para o poeta, essa é a criação. Olhar para dentro, agir para fora, em defesa do povo excluído, daqueles que estão tão distantes da cidadania, do país-Nação. Mais bolsa-familia para combater o imediato da fome, mais trabalho decente para os adultos a fim de se libertarem dessa ajuda momentanea, mais educação/cultura/civilidade para as novas gerações” Na condição de professora, hoje, esse é o meu limite de criação: votar numa mulher comprometida com as menininhas, para que outras vitrines possam embelezar nossas cidades, nossas vidas.
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