Pierrot

Pierrot
la tristesse

sábado, 14 de janeiro de 2012

anjo-lobo de mim

Cristiane Gandolfi, poetisa


Não mais verei seu olhar cansado 
Suas mãos sedentas ficaram paralisadas em minha memória.
seu riso discreto, quase incrédulo da arte de sorrir, partiu de mim.
Não terei mais o desejo de encostar meu corpo ao seu.
tudo é bruma presa ao copo resistente do nada de teu pensamento.
Ficou uma alegria quase infantil de quem sorriu na primavera,
quem partiu margaridas em bem-me quer e mal-me quer e pressentiu a visita do anjo roubando a noite, tocando as estrelas.
Não era um anjo, era um lobo invadindo o meu jardim.
Senti seu cheiro, toquei sua carne, tomei suas presas no mais íntimo da noite.
Momentaneamente a maturidade foi visitada com o frescor da adolescência.
Agora o relógio retomou o ritmo das horas.
Ficou o doce vazio,
Domar o lobo, anjo noturno que molha meus olhos num riso largo, a retina em sua luminosidade revela seus segredos, seu jeito de ser aqui.
Neste deleite,
Pleno, vigoroso, ávido de roubar horas,
Sentir os sentidos,
Tremer, vibrar, adormecer sorrindo para a noite.
O lobo se faz anjo e ressuscita o tempo em mim.

Um comentário:

  1. Este poema me fez chorar, lembrar das paixões adolescentes, dos sonhos povoados de erotismo e da solidão dos que já rumam diversamente à multidão. Lembrou o meu jovem mestre Álvares de Azevedo, a quem devorei com loucura e compulsão no delírio apoteótico que antecedeu o nascimento do poeta em mim. estou passando por mudanças e estas palavras me recordam que já passei por isso e me torno sempre alguém melhor... mas a emoção me assalta!

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