Do alto, vejo um clarão em linha reta
Cortando o que talvez seja uma cidade.
Talvez seja uma avenida.
Talvez seja uma autoestrada,
Que ressurge mais adiante
Após uma pequena descontinuidade,
Ligando outros clarões
Numa determinada ordem espacial
Que talvez sejam outras cidades
E, mais à frente,
Une-se a algo caudaloso,
Revelado ao luar,
Que talvez seja um rio
De argentino fluir,
De argentino fluir,
E juntos, talvez levem a uma Estrela.
Talvez seja a própria Via-Láctea
E eu esteja de cabeça para baixo.
Tudo isto talvez seja possível,
Uma vez que estou voando,
À noite,
E vendo tudo isto de dentro de uma nuvem.
Me dei ao luxo de escrever
Estudando os astros no céu,
O relevo no chão.
As nuvens são como ondas,
Em um outro mar.
O rastro de um jato é uma régua.
De fato, visto do céu tudo é diferente
E não tão claro como dizem.
Um rio de nuvens segue
Um rio de águas.
As cidades, a Lua...
Talvez haja cidades na Lua,
E nos olhem com o mesmo deslumbramento.
Conceber versos em tais circunstâncias
Faz um deus um poeta
De trincheiras e submundos,
Acima de uma camada de nuvens e rente a outra,
Vendo a límpida abóbada azul,
Parecendo solto no espaço sideral,
A uma velocidade quase estática,
No vácuo,
E é quando o gênio acode,
Transformando meu medo newtoniano
Em poesia.
As montanhas de nuvens
Como os horizontes da terra
Em um novo arrebol...
Tudo isto talvez seja possível,
Uma vez que estou voando,
À noite,
E vendo tudo isto de dentro de uma nuvem...
E dos céus
Trouxe um poema
Para quem me aguardava

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